Wednesday, April 03, 2013

Logosofia - Uma Nova Cultura -





Em 1930, Carlos Bernardo González Pecotche lançou as bases de uma nova cultura – a Logosofia – que haveria de se espalhar rapidamente por todo o continente americano. A nova ciência se mostrava como um caminho a ser percorrido pelos que pretendessem transformar as suas vidas num grande campo de aperfeiçoamento moral, psicológico e espiritual.

Quem era aquele jovem que, aos vinte e nove anos, trazia os novos conhecimentos? De onde os teria extraído? Em que fonte teria bebido?

Seriam necessárias décadas de esforços, estudos e realizações, a publicação de inúmeros livros, centenas de palestras, o surgimento de escolas de Educação Infantil e o resultado da aplicação daqueles conhecimentos na vida de milhares de estudantes, para que se pudesse avaliar a originalidade da ciência que estava no haver hereditário de seu criador, que o ofereceu aos que quisessem construir um caminho para depois percorrê-lo com os seus pés, sem nenhuma muleta.

Os conhecimentos, a técnica, o método pedagógico tinham uma diretriz fundamental: nenhum estudante deveria acreditar ou aceitar passivamente aquilo que a Logosofia vinha ensinar, senão buscar a comprovação do que recebiam como instrução. “A comprovação prévia de uma verdade é lei no processo de evolução consciente”, dizia o pensador. Essa garantia não puderam dar os predicadores que pretenderam escravizar as mentes por meio de preconceitos que cegavam os entendimentos. Quando afirmava que os agentes causais da vida humana eram os pensamentos que habitavam as mentes dos homens, e que seria necessário conhecê-los, identificá-los, classificá-los e selecioná-los através de um processo que tornasse possível a ascendência da vontade sobre eles, ao invés de serem seus escravos, isso não poderia ser aceito passivamente, se não compreendido profundamente.

Um dos pilares da Logosofia – especialidade científica e metodológica que trata da reativação consciente do individuo – é sua concepção sobre o sistema mental constituído por duas mentes: uma comum, inferior, utilizada para a vida diária, e que pode ser parcialmente organizada por meio dos estudos correntes nas escolas e universidades; outra superior, que transcende e que existe em latência em todo o ser humano. É muito comum ouvir-se dizer que usamos um quase nada de nossa capacidade mental que equivale à esfera mental inferior para a nossa sobrevivência na Terra; já a esfera superior precisa ser ativada para que se transcendam os estados primitivos em que se encontre.

Os conhecimentos apresentados pela Logosofia tendem ao desenvolvimento do sistema mental como um todo, organizando a mente inferior e desenvolvendo as faculdades superiores.

Se o ser humano continua se comportando como um selvagem, apesar de incontáveis séculos de lenta evolução, é porque não aprendeu a pensar, a reconhecer o Criador em tudo quanto existe, especialmente em si mesmo e nos semelhantes que deveriam merecer o maior respeito.

Nesses tempos de violenta modernidade, o afastamento entre as pessoas e os povos é um distanciamento incompreensível provocado pela ignorância e pelos preconceitos. A degradação das relações humanas é o sintoma do grande vazio promovido pela ausência da chama superior que todo o ser humano traz, mas que jaz adormecida como a bela princesa dos contos infantis.

Para ter um domínio sobre si e conquistar a capacidade de enfrentar as dificuldades que a vida apresenta, é necessário preparar a mente, o que pouco tem ver com a instrução que se recebe nas escolas cujo objetivo se limita à capacitação profissional. Essa nova educação é mais ampla e abrange toda a vida.

O homem vive em um mundo onde imperam os pensamentos e tem a equivocada sensação de ser senhor de sua vida, dos acontecimentos e do espaço que habita; são os pensamentos que perambulam por aí que governam a vida dele. Veiculados pelos meios de comunicação, caminham de mente em mente, impressos em livros, provenientes, muitas vezes, de mentes exóticas, cujos donos de há muito se decompuseram sob lajes ancestrais que não conseguiram sepultar as ideias e os costumes que compõem o grande cemitério das chamadas tradições.

Mas o que são os pensamentos? Sendo um produto da mente, não seríamos os seus senhores? Onde eles estão? Que sutil engenho poderia fotografá-los? São invisíveis? A que mundo eles pertencem?

A existência do pensamento como agente da inteligência e promotor da felicidade ou sofrimento do homem é a prova cabal da realidade de outro mundo, desconhecido pela maioria das pessoas. Essa entidade invisível é perfeitamente palpável para as mãos do entendimento, desde que ele tenha sido convenientemente adestrado.

O caminho da evolução consciente exige que a mente seja preparada para o conhecimento e domínio dos pensamentos, e capacitada para a criação de outros novos, filhos mentais gerados e educados pela pessoa que, por intermédio deles, poderá chegar a sobreviver aos curtos anos da vida no planeta. O império dos pensamentos poderá ser substituído pelo da inteligência, através da reversão da condição humilhante em que a maioria se encontra, escravizada por pensamentos que perambulam pelo mundo.

Carlos Bernardo González Pecotche faleceu em 4 de Abril de 1963, há 50 anos, deixando uma vasta obra bibliográfica e uma Escola de Adiantamento Mental, com sedes na Argentina, Uruguai e Brasil. A Logosofia continuou a ser estudada nas diversas sedes da Fundação Logosófica em Prol da Superação Humana, que conta hoje com diversas sedes na América, Europa e Oriente Médio. Seu objetivo é o aperfeiçoamento do ser humano.

Para González Pecotche, viver deveria significar muito mais do que ser um mero espectador no teatro da vida, um repetidor de frases e gestos criados por outros. E para que se pudesse chegar à compreensão clara de seu significado, seria necessário exaltar o amor a ela; não o egoísta, separatista, que distancia os homens por interesses diversos, raças, ideologias ou religiões, mas o verdadeiro, o que exala de cada criatura, e amanhecer como um motivo de vida, alegria e verdade.

“A Sabedoria de Deus está plasmada na criação, enquanto que a do homem consiste em conhecê-la e servir-se dela para superar as etapas evolutivas de seu gênero”, escreveu Pecotche. E conclui:

[...] O homem busca o conhecimento porque é o meio pelo qual chega a compreender a sua missão e a sentir a presença em sua vida deste ser imaterial que responde ao influxo da eterna Consciência Universal, e é portador, através dos tempos, da existência individual.

O conhecimento move o homem para que se eleve, para que deixe de ser o que é para ser algo melhor; e é o grande agente criador das possibilidades humanas.

Na certidão de óbito do pensador consta a profissão de escritor, autor de composições literárias ou científicas. No dizer do advogado José Antonio Antonini, estudante de Logosofia e editor, que teve a oportunidade de conhecer pessoalmente González Pecotche:

“[...] aqui se sobressai uma dessas particularidades do escritor: ele é autor de composições, não somente de uma ou outra modalidade, senão de muitas, tanto literárias quanto científicas. E fazia-o valendo-se de formas conhecidas, como o romance, o diálogo, a expositiva, a poesia, o tratado, mas sempre vinculando tais formas ao gênero científico, visto ser o criador de uma ciência que denominou Logosofia, uma especialidade científica e metodológica que se ocupa da reativação consciente do indivíduo. Também foi editor, ilustrador, pintor, músico e compositor. Sua partitura sobre Recordações Egípcias, ele a executava em uma rádio Argentina. O que o distinguia da generalidade dos escritores era precisamente esta aptidão de incursionar em todos os matizes da composição literária, vinculando o leitor aos princípios metodológicos e científicos desta ciência da vida ou do invisível que se encontra em cada ser.

A presença marcante do espírito de González Pecotche não haveria de esmaecer-se com o seu desaparecimento físico, pois os seus pensamentos estavam consubstanciados no grande movimento por ele iniciado, do qual fazem parte todos os estudantes e pesquisadores, as escolas criadas, a vasta bibliografia, as centenas de conferências pronunciadas e os eloquentes resultados obtidos por meio da aplicação do novo método pedagógico que afirma que o ser humano pode ser dono de sua vida e destino, ao aprender a pensar, libertando-se das travas seculares que imobilizaram a sua inteligência e vontade, transformando-o num ser violento, irascível, perturbado e incapaz de conviver em paz com os semelhantes.

Depois de séculos de orfandade espiritual, marcados por guerras inomináveis e sofrimentos sem par, o homem deveria começar a construir um novo caminho, reconhecendo suas limitações e defeitos, conhecendo-se melhor e transformando a sua pessoa num ser verdadeiramente humano, deixando de comportar-se como um animal para compor um quarto reino, o hominal, no qual figurariam os seres inteligentes e não os que fazem descobertas para infernizar a vida da humanidade.

Dentre as grandes lições deixadas pelo humanista destaca-se a da gratidão pelo bem recebido, que nos permite mantê-lo como um talismã que haverá de substanciar os dias futuros e iluminar o caminho dos que virão trilhá-lo. Através da gratidão e da recordação, o espírito daqueles que beneficiaram a humanidade em sua breve passagem pela Terra sobreviverá e prosseguirá em seu silencioso e humanitário trabalho, invisível aos olhos de muitos, mas sólido e consistente sob a perspectiva da História.

Nagib Anderáos Neto



Extraído do livro Deus e os Detalhes



































































































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Thursday, March 21, 2013

A Insustentável Arrogância



Do latim arrogantia, orgulho que se manifesta por atitudes altivas e desdenhosas; soberba, insolência, atrevimento. É o que nos transmitem os modernos dicionários da língua portuguesa.
Mais do que a definição do termo, interessa-nos o perfil do pensamento que está na mente da maioria dos seres humanos.
O que é a pessoa soberba? A sabida? A que gosta de humilhar os outros? A que sutilmente se arroga a uma posição fictícia com o indisfarçável intuito de diminuir os outros? Que se acha esperta e que todo o mundo não sabe nada?
A pessoa extremamente arrogante põe a descoberto um defeito ou deficiência psicológica que, em menor ou maior grau, todos temos: a soberba, oposta à humildade, que insensibiliza as pessoas, faz o chefe pisar no subordinado, o inferior se revoltar contra aqueles que estão hierarquicamente acima dele, mas que quando ascende a cargos superiores se torna mais cruel do que foram com ele. Não é difícil identificar nas outras pessoas este defeito; o difícil é reconhecê-lo em si, porque fomos educados para olhar o que nos cerca sem perceber o que ocorre em nosso mundo interior, na nossa alma; é fácil criticar os outros, mas difícil realizar a autocrítica.
A soberba é irmã siamesa da vingança, da desconformidade. O fato é que ela existe na maior parte das pessoas. É um pensamento que deve ser identificado e combatido, para o nosso bem e felicidade.
Como muito bem apontou González Pecotche no livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, “a soberba não tem lugar nas almas grandes nem nos espíritos fortes e bem equilibrados. O soberbo é violento, e sua palavra, lacerante. Agrada-lhe humilhar e depreciar. E, além do mais, ambicioso; aspira ao trono material e não vacila se, para ascender a ele, deve valer de meios pouco dignos e em detrimento do próximo”.
O soberbo é ingrato, incapaz de reconhecer a atenção e a ajuda que outros despenderam a ele. A ingratidão é um dos grandes males dos quais os seres humanos padecem e causadora da depressão e do vazio.
Oposta à soberba é a humildade, virtude que tem a ver com a simplicidade e a naturalidade e que não deve ser confundida com a falsa, tão comum nos impostores fantasiados de bondosos, generosos e mansos, os que escondem em seu íntimo a pretensiosa ambição de subjugar as mentes e as vontades das pessoas tristemente qualificadas de boa-fé.
A soberba, como tantos outros defeitos humanos, afasta o homem de seu semelhante, da alegria, da felicidade.
 Ocupar-se de si, identificando os próprios defeitos com o objetivo de combatê-los, faz parte de uma educação de exceção que escola alguma é capaz de ensinar.

Nagib Anderáos Neto

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Friday, March 23, 2012

Os Dois Trabalhos de Hércules

O maior herói mitológico da Grécia, Hércules, símbolo da força, o mais forte homem sobre a terra, era uma espécie de semideus. Nada que existisse no ar, no mar ou na terra poderia derrotá-lo. Em suas aventuras há uma representação poética do valor posto a serviço da humanidade como na eliminação da serpente de cem cabeças, no combate aos gigantes, na morte do leão de Neméa.

O seu intelecto, no entanto, não era forte. Ele não era um herói perfeito como Theseu, o dos atenienses, que era forte de corpo e intelecto. Mesmo assim, ele se julgava em igualdade com os deuses. Era um filho torto de Zeus; poderia apenas ser vencido por uma força sobrenatural, como de fato aconteceu por uma mágica encomendada por Hera, a esposa de Zeus que não era a sua mãe.

Para a Logosofia, os trabalhos hercúleos e sobre-humanos não são doze, e sim dois: encarar, combater e derrotar a fera que cada ser humano traz dentro de si como herança ou estigma de épocas distantes, quando ela lhe fora útil em seus primeiros tempos sobre a terra, e unificar as qualidades e potencialidades que traz como herdeiro de um Criador que em todos infundiu o sopro da genialidade e do amor.

Cada homem pode encarnar o Hércules legendário utilizando agora a sua força psicológica para derrotar os inimigos interiores, os seus defeitos, que lhe impedem contemplar a Verdade e ser feliz; viver em paz e cumprir a missão maior que lhe foi encomendada: evoluir e ser útil aos seus semelhantes.

Numa conferência pronunciada em Buenos Aires em 30 de Setembro de 1948, o pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche afirmava que “são estes os dois trabalhos de Hércules que é necessário realizar, porque as deficiências, que são as que desdobram a personalidade humana e as que enganam com freqüência o próprio ser, são as que também, convertidas numa espécie de diabo pessoal, aconselham constantemente o homem a crer-se o que não é. Um ser desta índole é o pior dos crentes, porque chega a converter-se em um pequeno deus, pessoal e infalível: e, logicamente, erguido sobre semelhante pedestal, rechaça todo o intento de aperfeiçoamento e anula todo o esforço que tenda a desarraigar nele esta recôndita crença”.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

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Monday, June 06, 2011

Criatividade sem Autoritarismo

O homem que pensa cria, e luta por neutralizar seus baixos instintos. Paz e felicidade são asseguradas através do estímulo à criatividade que é tolhido nos jovens e nas crianças pelo autoritarismo, resquício medieval de inquisidores cruéis que se reproduzem como pragas na sociedade moderna e contra os quais se deve lutar, empenhando-se na busca da verdade como resposta à covardia e ao medo disseminado pelos impostores. Como muito bem dizia Russel, a moralidade nada tem a ver com regras ditadas por qualquer autoridade.

Se Deus é a Natureza e o Universo, e o homem parte de tudo, ele é um Deus em formação que através do conhecimento de si, um dos principais objetivos da vida inteligente, poderá transformar-se em Homem através da evolução. Desta forma, Deus não é assunto de adoração, veneração ou crença, senão de conhecimento.

A imortalidade encontra respaldo na ciência desde que um pensamento criado por uma pessoa possa sobreviver à sua morte. A História está repleta de exemplos, a criação sobrevivendo ao criador. Biologicamente, isso está arquicomprovado. Deus cuida da espécie, o indivíduo deve cuidar de si.

O cérebro morre com o corpo, mas os pensamentos podem sobreviver. A palavra tem um corpo, uma alma e um espírito, como bem ponderou o pensador González Pecotche. O corpo, a palavra escrita, a alma, a pronunciada, e o espírito a impronunciada, sua essência que pode se imortalizar.

Deus não escreve livros, e sim homens, naturezas, o Universo. Este é o Verbo Divino. Homens escrevem livros, e a linguagem humana provem daquela – a ancestral - pois visa nomear uma escritura maior.E de onde provêm as diversas línguas criadas pelos homens?

A linguagem - as palavras que deveriam ser utilizadas para nomear o Verbo e para que os homens se unissem neste trabalho - passou a ser instrumento de dissensão. Então surgiram as línguas, os afastamentos, a linguagem decaída, a babélica.Se a palavra escrita é o corpo físico do pensamento, para se chegar a ele – que é invisível, incorpóreo –, poderemos fazê-lo através dela.

Se o corpo físico do homem, o visível, o palpável, guarda em suas profundezas a inteligência, a sensibilidade e a essência invisível e intocada, ele - o espírito - assemelha-se ao pensamento, à essência invisível da palavra.

“O essencial é invisível aos olhos”, escreveu o inspirado piloto francês.

Assim, o espírito, como o pensamento – invisíveis e essenciais que são –, como os sentimentos, os sonhos e as recordações, deveriam merecer de nós uma atenção maior.

E como ocupar-se mais de si ? Como conhecer-se melhor?

A tarefa não é fácil, mas não impossível; começando por deixar de ocupar-se tanto dos outros e do que nos cerca, cultivando um olhar reflexivo e auto-observador. Somos especialistas na observação do que acontece ao redor, mas ausentes de nós. Não chegamos a aproveitar as lições do que nos cerca para aperfeiçoar-nos, que é o que mais deveria nos interessar.

Não somos muito diferentes de um pensamento que pode ser bom ou mau, que necessita reproduzir-se para sobreviver como espécie; que pode evoluir nos curtos anos de vida física.

Deus quer que o ser humano use a inteligência e o coração para aproximar-se da Verdade que se confunde com o aperfeiçoamento. Ele não é o pai vingativo que atemoriza os filhos e se regozija com guerras fratricidas que os insensatos, os impostores e os ditadores dizem fazer em Seu nome.

Lutar pela liberdade própria e social, procurando respirar as verdades imanentes à Natureza, e as que brotam da inteligência e do coração, é a sensata e eloqüente postura do aprendiz que, apesar de reconhecer as suas limitações, não se conforma com a imobilidade e a submissão.

Assim, para que não sejamos letra morta num livro inútil e sem vida, deveremos aprender a escrever a nossa história com letras visíveis e invisíveis, como autores e atores, ao invés de espectadores passivos a assistir aos dramas vividos por tantos que sofrem por não pensar, por falar línguas diversas, por estar sempre a se desentender.

E talvez possamos recuperar a linguagem perdida que na infância da humanidade sabíamos tão bem pronunciar.




Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Wednesday, March 02, 2011

Observar e Pensar

O que é observar? Seria o mesmo que pensar, refletir, recordar, raciocinar?
O que se deve observar? O que tem a observação a ver com o entendimento?
E a inteligência, onde fica?
Observar não é apenas olhar, contemplar, senão ver e entender. É uma capacidade da inteligência que pode ser desenvolvida, educada e utilizada para o bem próprio e coletivo. É necessário que um objetivo guie a observação. A palavra inteligência provem do latim e significa capacidade de ler por dentro, penetrar no sentido íntimo do que se vê. Se olho para os rios e os prados absorvendo e aprendendo a calma da Natureza em seu incessante movimento, dei um destino prático à observação porque me espelhei no que vi. Se olho para as paisagens interiores, pensamentos tumultuados e intempestivos que estão na mente e exercito-me na imposição de ordem e disciplina que harmonizem aquelas paisagens, dei um destino positivo para a observação que se confunde com a reflexão, o pensar, a recordação, a inteligência - o sol interior que cada ser humano tem e que pode brilhar mais e mais, libertando-nos da escuridão - , pois o maior cego não é o que não quer ou não pode ver, senão o que não quer ou não pode entender. E os primeiros entendimentos que devemos realizar são os que possamos ter sobre nós.
É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si. Julga-se, em geral, em função de apreciações alheias, pelo que se ouviu dizer, e não pelo que realmente se observou. A observação consciente – conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências – deveria servir para corrigir as nossas imperfeições. O que vemos de desagradável na conduta de uma pessoa levar-nos-ia a verificar se não existe em nós aquela característica. Mas o ser humano não sabe olhar para si; olha o mundo como se não fizesse parte dele; vê, mas não enxerga e nem entende que todo aquele cenário está ali para transformá-lo em diretor e ator do espetáculo da sua vida. Ao invés disso, gasta seu tempo admirando ou criticando outras vidas e mundos, esquecendo-se de si, e que dentro dele existe um pequeno universo no qual poderia viver e ser feliz. Essa falha gritante da cultura engendrou nas mentes a tendência ao escapismo; viver fora da realidade, sempre a fugir de si, no trabalho, diversões, estudos, leituras, nas platéias, pois não consegue conectar aquilo que acontece à volta com a sua realidade. Olhar para a Natureza e seguir o exemplo de paciência, movimento, renovação, evolução, e exercitá-lo no dia-a-dia através da capacidade de pensar, criar e se modificar.Ao invés disso, vamo-nos transformando em atores que decoram e interpretam falas escritas por outros que foram atores como nós, repetindo frases e cenas que compõem as tradições que – como disse González Pecotche – são o cemitério das idéias.
Romper com essa inércia é o grande desafio da humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si e educar-se, o homem do futuro transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência no qual se encontra num cenário condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.
Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates dá-nos a pauta de uma conduta, caso queiramos aprender e evoluir. Será necessário arrancar a máscara da personalidade que nos leva a aparentar aquilo que não somos, mas que imaginamos. Se ela não estiver aderida à epiderme psicológica, poderemos iniciar o caminho para construir a individualidade.
Já se disse que os homens são livres, mas não o sabem; nascem livres e vão perdendo esse dom que lhes fazia sentir imortais, verdadeiros super-homens naquele formidável universo infantil. Esse seria o tão bem guardado segredo dos tiranos, o fato de saber que os homens podem chegar a ser livres novamente, mas não enxergam isso, transformando-se em escravos nas mãos daqueles déspotas.
A liberdade é um dom que, se não utilizado, pode desvanecer-se, da mesma forma que a inteligência e a sensibilidade humanas.
É comum ouvir-se dizer que o ser humano usa um quase nada de sua capacidade mental; que uma mente preparada poderia realizar verdadeiros prodígios. Por que isso acontece? Por que a mente humana é pouco utilizada? Quais as causas dessa deficiência? O que fazer para tornar a mente mais eficiente?
Essa falta de liberdade é como um cárcere cujos barrotes são o temor de pensar por própria conta, os preconceitos, a ignorância sobre si e as Leis que regem o Universo.
Todos querem a liberdade, trazem-na dentro de si como algo que não se realiza, e, no fundo, sabem que o ser humano não deve curvar-se perante poderes quaisquer.
Se o homem, como diziam os gregos, é a medida de todas as coisas, por que vive tão esquecido de si, tão ausente, entretido com o que não é essencial por ser passageiro e efêmero?
A verdadeira liberdade é a de pensar. É assim como o espírito humano respira,criando,tendo um domínio sobre os pensamentos que perambulam por aí fazendo os estragos que sabemos quais são.
Ser livre é usar com liberdade a inteligência, suas faculdades, e não somente a memória e a imaginação,como nos têm pretendido impor aqueles que nos querem manter atados às rédeas da submissão. Os tiranos, os ditadores, os inimigos da liberdade não querem que o ser humano pense, porque tal grito de liberdade é a ameaça ao poder que as ânsias de domínio desenham em suas mentes doentias.
Pensar, observar, raciocinar, refletir, combinar e julgar são algumas faculdades da inteligência que não têm sido muito exigidas e desenvolvidas pelo ser humano pode deixar de ser joguete e escravo de pensamentos alheios que nada têm a ver com a felicidade almejada pelos que sonham com a liberdade.

Nagib Anderaós Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Monday, February 21, 2011

A Lei do Tempo

O mistério do tempo é o da vida. De sua compreensão depende a conquista da felicidade.
Mais do que um bem precioso, o tempo é história, eternidade, paciência, sabedoria. Deus é paciência, disse a personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas. Uma parte de Deus também é tempo, irmão da paciência, pois lá estava no inicio de todas as coisas.Paciência, movimento e mudanças são lições diárias que a Natureza oferece através de suas múltiplas faces para a inteligência que pode decifrá-las.
A fuga do tempo existe para quem não consegue retê-lo e multiplicá-lo. Neste caso, os ponteiros do relógio são uma tortura. Não há tempo suficiente para o cumprimento dos compromissos; ele passa muito rápido e escraviza a pessoa que julga que seja dinheiro, e, como tal, sempre lhe falte. Se tempo fosse dinheiro, Deus seria um banqueiro.
Os dias que se sucedem monotonamente são noites mentais, pedaços de vida que se desprendem da pessoa deixando o saldo do vazio, a sensação de inutilidade, o esquecimento, o temor pela morte que se aproxima a passos largos.
O tempo de vida do ser humano pode transcender a mensuração limitada das horas, dos dias e dos anos definida entre o instante do nascimento e o da transição para a morte. Essa ampliação do tempo é uma conseqüência da vida mental, a verdadeira. Pode-se viver muito ou pouco, dependendo dos conhecimentos que se tenha.
Os tempos de evolução caracterizam-se pelo esforço continuado na busca do conhecimento e no desenvolvimento da consciência. Para aproveitar o tempo é necessário aprender a pensar, produzir soluções para os problemas diários.Administrá-lo bem significa acumulá-lo dentro de si; ser consciente do que se viveu e ter um plano para a vida futura; domínio sobre si e um objetivo definido; todos os atos e pensamentos imantados para uma finalidade que abarque o aperfeiçoamento da espécie humana; significa encarar a vida como um grande campo experimental de aprendizado e realização.
Em um brilhante artigo escrito na década de quarenta, o pensador e educador González Pecotche dizia que " a lei do tempo é, como todas as leis universais, justa e exata; e é lei porque fixa, sem distinção, normas e regras inexoráveis. Assim demonstra o fato de que o tempo perdido não pode mais ser utilizado; é como um pedaço de vida que se desperdiça e não pode mais ser incorporado a ela."
E numa conferência pronunciada em Córdoba em 1949," muitos momentos do dia passam em branco porque a mente, distraída por completo, se submerge na penumbra. Como é natural, estes trechos de tempo são pedaços de vida que se vão, por não se experimentar no curso dos mesmos a sensação de existir. "
O tempo é como a água, um bem precioso que só se dá conta de seu valor quando falta, por ter sido mal empregue, desperdiçado.
A rotina, a distração, as divagações e os rancores são inimigos do tempo por impedir que o homem pense, crie e construa um destino melhorado.

Nagib Anderáos Neto
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Monday, January 17, 2011

Livros Para Homens Livres

Havia na estante a coleção completa do Tesouro da Juventude a me olhar desafiadoramente com o seu Livro dos Porquês e suas folhas cheirosas e brilhantes. E lá também o resumo de grandes obras literárias, iniciação juvenil, verdadeiras janelas abertas para o mundo. E Lobato, o mágico, com a Gramática da Emília, Reinações de Narizinho, Os Doze Trabalhos de Hércules e a mitologia ao alcance de todos. Havia a coleção arrumada das Seleções até o último exemplar do mês e O Pequeno Príncipe presenteado pelo professor de latim quando fiquei encarcerado no quarto por causa de uma hepatite devastadora.

Havia o rádio e os relógios decompostos que eu jamais fizera funcionar novamente. E Stefan Zweig falando de um país de um futuro que não chegava nunca sepultado entre Fouché, Maria Antonieta, Maria Stuart, Caleidoscópios e Calvino.

Havia Huberto Rohden com sua idealizada perspectiva de um cristianismo sem templos ou sacerdotes e o Goethe, naquela edição castelhana com suas páginas finíssimas – presente de papai num 6 de setembro inesquecível –, com o seu Werther eternamente à procura do amor impossível. E aquela série inumerável dos livros do mês que mamãe devorava avidamente na fuga da rotina: Cronin, Amado, Clarice, Balzac, Victor Hugo, Humberto de Campos, Guimarães Rosa, Bíblias desgastadas e o missal que eu nunca li. E havia os dicionários, ah! os dicionários, uma vida e uma solidão naquelas estantes multicoloridas e promissoras, cânone familiar e singelo, garimpos de cultura. Mas não havia ali a pessoa do Pessoa e nem a Emily Dickinson construtora de naturezas. Não havia ali as flores de Baudelaire e nem o sábio astrônomo de um americano chamado Walt Whitman ou o Emerson com a sua poesia filosófica ou canto telúrico de Neruda. E não havia ali o Borges com os seus espelhos e labirintos e nem o argentino González Pecotche com a sua Logosofia revolucionária e humana, construtora de culturas e de ideais.

Havia ali uma promessa, uma plenitude e um vazio; livros adormecidos, espaços a serem preenchidos, pensamentos e idéias enclausuradas em páginas comprimidas pelo esquecimento à espera do toque mágico da mão curiosa, do olhar atento e inquiridor do aprendiz que poderia libertá-los do silêncio e do sono e torná-los, redivivos, fachos luminosos nesses obscuros caminhos criados pelo homem moderno.

Havia ali livros. Livros feitos por homens e para homens livres.


Nagib Anderáos Neto

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Tuesday, November 16, 2010

Tempo Não é Dinheiro

A falta de tempo é um drama dos tempos modernos porque as pessoas vão deixando de pertencer a si mesmas transformando-se em escravas de compromissos diversos.
A velha máxima americana que diz que “Tempo é dinheiro” transformou-se num preconceito que dificulta a solução do problema da falta de tempo que aflige tantos seres humanos.
A realização do sonho da liberdade individual do ser humano deveria começar por aí: liberar-se da escravidão imposta por compromissos e pela má administração da vida.
Há muitos fatores que levam à perda de tempo; um é o principal: perde-se tempo quando não se pensa, quando se age mecânica e rotineiramente seguindo os pensamentos e idéias pensados por outras pessoas.
A função de pensar, entorpecida por preconceitos, crenças e idéias retrógradas, deve ser ativada em função de um grande objetivo que norteie a vida do ser humano nesta breve passagem pela Terra: evoluir e colaborar com os outros seres humanos neste sentido.
“O tempo é a essência oculta da vida”, escreveu certa vez o pensador González Pecotche; compreendê-lo e administrá-lo inteligentemente, livrando-se da tirania dos ponteiros do relógio, é uma tarefa cujos resultados são infinitamente superiores ao esforço empreendido.
Dizer que tempo é dinheiro é tão absurdo como imaginar que Deus seja um banqueiro.
A fuga do tempo existe para quem não consegue retê-lo e multiplicá-lo. Neste caso, os ponteiros do relógio representam uma tortura constante. Não há tempo suficiente para o cumprimento dos compromissos e obrigações. O tempo passa muito rápido e escraviza a pessoa que julga que ele seja dinheiro, e, como tal, sempre lhe falte.
Os dias que se sucedem monotonamente são noites mentais, pedaços de vida que se desprendem da pessoa deixando o saldo do vazio interior, a sensação de inutilidade, o esquecimento, o temor pela morte que caminha em sua direção a passos largos.
O tempo de vida do ser humano pode transcender a mensuração limitada das horas, dos dias e dos anos que se somam na trajetória definida entre o instante do nascimento e a transição para a morte. Esta ampliação do próprio tempo é uma conseqüência da ampliação da vida mental, a vida verdadeira do indivíduo. Nesta esfera, pode-se viver muito ou pouco, dependendo dos conhecimentos que se tenha.
Os tempos de evolução caracterizam-se pelo esforço continuado na busca do conhecimento e a conseqüente ampliação da consciência. Para aproveitar o tempo, conscientemente, é necessário aprender a pensar; a produzir soluções luminosas para os problemas individuais e coletivos que vive o homem de hoje.
Administrar bem o tempo significa acumulá-lo dentro de si; ser consciente daquilo que se viveu e ter um plano para a vida futura. Um domínio sobre si e um objetivo definido para a vida que se está vivendo; todos os atos e pensamentos imantados por um grande objetivo que abarque o aperfeiçoamento individual e coletivo da espécie humana. Significa encarar a vida como um grande campo experimental de aprendizado e realização.
Tempo é vida e pode ampliar-se indefinidamente independente do monótono movimento dos ponteiros do relógio.

Nagib Anderáos Neto
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Friday, November 12, 2010

Deus e a Consciência

Melhor que dar o peixe ou ensinar a pescar é ensinar a pensar. Mas antes de fazê-lo, será necessário aprendê-lo. Pensar é um ato de liberdade, um aprendizado espiritual que exige saber julgar-se, querer melhorar, sentir a necessidade de evoluir, realizar. E pensar no quê? Em Deus, em si mesmo e nos semelhantes, ensina González Pecotche, o pensador que dedicou sua vida ao culto da nobre função que as crenças e os preconceitos impedem realizar.
Deus se confunde com o homem, com todos os homens, sem nenhum privilégio ou intermediário. Está presente no templo interior que existe no coração de todos e que se chama consciência, a que deveria reger todos os atos humanos, o Deus interior, a bela adormecida que ali jaz prostrada sob as sombras do ceticismo, da ignorância, das crenças e dos preconceitos.
O homem nasceu para pensar e não apenas para trabalhar, se divertir e se conformar com a entristecida vida rotineira dos que imaginam que a felicidade se resume na posse de coisas que perdem o seu valor quando conquistadas.
O principio do processo de liberação espiritual pelo pensar resume-se no reconhecimento das próprias limitações e na identificação dos preconceitos e crenças que aprisionam a inteligência nas masmorras da ignorância. E a maior ignorância é ignorar-se, não se ver, desconhecer-se. Mesmo o mais letrado, o mais culto, pode ser um ausente de si, de sua consciência.
Mais do que o axiomático ”conhece-te a ti mesmo” do ilustre personagem mencionado por Platão em seus diálogos, sobressai-se o “tudo o que sei é que nada sei”, principio de todo o processo de liberação pelo pensar.
Se não me conheço, desconheço minha capacidade de criar. Se não sou um pequeno criador, não posso sentir e compreender o grande Criador.
Todo o ser humano pode ser um criador, mesmo não sendo artista, e compreender melhor o Grande Criador, o Deus único, tão distante do materializado homem moderno. E a maior obra de arte que um ser humano poderia realizar seria a de criar a sua pessoa tornando-se um indivíduo melhor, em constante aperfeiçoamento; essa sim seria a obra-prima, a maior obra de arte, a única que poderia merecer tal classificação.
Deus não está nas alturas, nos livros, nos templos ou nas desgraças; nem nas pestes ou doenças incuráveis. Ele não traz o tom pesado e vingativo; não pune, não castiga, não deprime; ensina, reconforta e traz esperança. Está num sorriso infantil, na emoção de uma descoberta, num instante de reflexão, na generosidade de quem ensina. Maior que tudo quanto existe, que o mesmo Universo, tem em cada coração um pequeno templo despojado do ouropel e da pompa, do ar pesado da intolerância e da incompreensão. Para penetrar em seu interior, muitas vezes inacessível à pretensão e à ignorância, é exigido que se desvencilhe da pesada carga de preconceitos, da incompreensão e dos defeitos que vêm dominando a mente humana, impedindo-lhe de contemplar a Verdade pela névoa da ignorância que tem cegado o seu entendimento.
Um homem afastado de si e dos semelhantes é desatento, distraído de Deus, inconsciente.

Nagib Anderáos Neto.

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Wednesday, October 06, 2010

A Arte e o Sonho

Qual mistério envolve a atividade artística quando o ser humano decide elevar-se sobre a mediocridade da vida rotineira para alçar-se em voos cujas obras eternizam-se, transcendendo os curtos anos de vida na Terra?
Por que arte e cultura são tão celebradas?As crianças trazem consigo uma vocação natural para elas que se vai apagando ao tempo em que crescem e vão sendo influenciadas e sufocadas por este mundo cheio de idéias práticas permeadas pelas ânsias da produção, trabalho, lucro e exploração. O pequeno artista transforma-se num homem amargo, previsível e frustrado, numa jornada tão bem ilustrada pelo mito de Sisífo e resumida num trabalho rotineiro, inútil e sem esperança. Mas o espírito – imanência de Deus no homem – vinga-se da alma adulta nas noites eternas transformando o seu sono em espetáculos inesperados onde o pequeno artista renasce como autor e ator, cumprindo o seu destino naquele palco metafísico chamado sonho. A criança eterna de Caieiro está ali a apontar a direção de um grande destino do qual aquele ser infeliz se desviou: ser o criador de si mesmo, escultor da própria imagem, pintor do destino e escritor de sua história.
A matéria inextricável e confusa de pensamentos desconexos que no dia se atropelavam naquela mente desorganizada, durante a noite integra-se em personagens assustadoras que se enredam em pesadelos terríveis ou compõe idílicas e eufônicas passagens que perduram na recordação como reminiscências inefáveis. Durante o sonho, a criança vem cobrar o seu destino e reafirmar que existe e gostaria de estar presente na vigília, este outro sonho misterioso e inescrutável.
Diz-nos Borges em A Rosa Profunda (O Sonho, 93) que “dessa região imersa resgato restos que não consigo compreender: ervas de singela botânica, animais um pouco diferentes, diálogos com os mortos, rostos que na verdade são máscaras, palavras de linguagem muito antigas e às vezes um horror incomparável ao que nos pode conceder o dia”.
Quantas vezes assustados emergimos de um pesadelo sufocante e nos dizemos aliviados que era apenas um sonho! E quantas outras, em meio à vigília exasperante, perguntamo-nos se o que está nos acontecendo não seria um pesadelo.
O pensador e humanista Gozález Pecotche escreveu no livro O Espírito: “Sobre os sonhos já se fizeram inúmeras proposições. Muitos pretenderam decifrá-los, dar-lhes um significado particular; muitos também teceram em torno deles fantásticas conjeturas, mas ninguém jamais expressou que é o espírito quem os provoca, em seu constante esforço por se fazer presente em nossa vida diária”.
A arte faz parte da vida do ser humano e é tão antiga quanto a civilização. A pictografia ancestral, como o pendor infantil para a comunicação através dela, é a prova cabal de que o homem é diferente dos animais. O primitivo, além de caçar, comer, dormir e se reproduzir tinha a necessidade de se comunicar através da arte. É interessante observar como pintar, esculpir ou produzir um texto literário são processos lentos. O artista não pode ser impaciente e nem preguiçoso. Deus é paciência, diz a personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas. Quando vemos um quadro e os esboços feitos previamente pelo artista, constatamos que a obra final pouco tem a ver com o projeto inicial; que no exercício da criação houve uma alteração dos rumos iniciais. A arte tem a ver com habilidades mentais e sensíveis que podem ser usadas para o bem ou para o mal, como os conhecimentos. Uma reflexão mais profunda sobre a beleza e a verdade nos levam à conclusão que ambas devam caminhar juntas no processo de criação, que não podem ser excludentes.
Uma forma de arte revolucionária e pouco conhecida é a que vem sendo estudada e aplicada em centros avançados de estudos espalhados pelo mundo — verdadeiras escolas de adiantamento mental — e que consiste na criação do próprio artista, certamente a mais difícil de todas as artes: a arte de criar a si mesmo. É uma arte difícil por tratar-se de uma recriação pessoal; uma obra para toda a vida onde se é instruído no sentido de reconhecer todos os defeitos e imperfeições. O seu cultivo exige esforço, constância e observação.
Inspirado na obra maior que é a Criação, o ser humano pode transformar-se no autor e ator de seus próprios dias, dono de seu destino e artífice do futuro, dando um salto mortal por sobre tudo o que tem estreitado sua visão e endurecido o seu coração.
Esta é uma arte com a qual podemos sonhar.

Nagib Anderaos Neto
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Monday, September 20, 2010

Bruna, Borges e o Outro

Onze de Agosto de 2001.Biblioteca Nacional em Buenos Aires.A palestra por se iniciar. No saguão, enquanto uns fumavam e outros contemplavam a galeria com as fotos dos imortais, um jovem brasileiro cochicha no ouvido da namorada: “Quem é este tal de Borges?”

A palestra versaria sobre o centenário de nascimento de outro argentino ilustre, o pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche.

Recordei-me da linda atriz brasileira que se transformara em escritora e que numa infeliz entrevista dissera que nunca ouvira falar de Fernando Pessoa que eu conhecera tardiamente, em setenta e dois, como o poeta argentino, em noventa e dois. Quanta perda de tempo! Tempo perdido não volta mais, ele flui como o rio de Heráclito e a areia que desce firme e decidida na ampulheta.

Por muito tempo achei que àquele jovem iletrado faltava muita coisa. Depois compreendi que todos fomos iletrados um dia - se ainda não o somos - , e muitos tiveram paciência conosco. Bondade, mais bondade é o que faz falta; palavras mágicas que ecoavam em meus ouvidos há muito tempo, e que eu deveria ter lido nuns escritos de González Pecotche. Se eu não tenho paciência com os outros, como poderiam tê-la comigo? A Natureza ensina paciência. O sol ensina paciência.

Recordei-me do Livro de Areia, do Outro, onde Borges maduro encontrava com o outro Borges, o jovem, em 1969, ao norte de Boston, em Cambridge, e os dois conversam sobre a eternidade, a juventude, a velhice, a morte e a arte. Falam da família, do pai morto e seus gracejos contra a fé, o defunto com uma mão de criança sobre a mão de um gigante, e um Jesus a falar como um gaúcho através de parábolas, para não se comprometer.

Borges deixou um exemplo grandioso: a criação não depende dos olhos sãos, do computador ou da parafernália eletrônica. Foi capaz de produzir a parte ponderável de sua obra depois de adentrar a escuridão, desmistificando a idéia de que a tecnologia e a visão física perfeita pudessem trazer uma felicidade completa. Borges criou e sobreviveu, apesar da cegueira, como Cervantes, apesar da prisão.

O maior cego não é o que não pode ver, mas o que não quer entender.

Falaram sobre livros e sobre Whitman – o incapaz de mentir -. Num de seus poemas, Walt Whitman descreve a desconcertante experiência ao assistir a uma palestra de um grande astrônomo que apresentava seus gráficos, números, mapas, diagramas, e se enfastia, se aborrece com aquelas explicações acadêmicas, saindo, então, do auditório, e, à rua, “no ar úmido e místico da noite” pode olhar, “em perfeito silêncio, para as estrelas”.

A expressiva lição da realidade da infinitude do Universo que nos cerca bem como do mundo mental que a tudo interpenetra e compõe deveria ser muito mais bela e instrutiva do que a mera racionalidade pudesse descrever. ”Não posso conceber nenhum ser mais maravilhoso que o homem”, dizia o poeta da meia – noite, do sono, da morte e das estrelas, que se autoconsiderava uma espécie de deus libertador americano.

A poesia de Whitman é saudatória, como a de Fernando Pessoa, quando o poeta português saúda-nos, deseja-nos sol e nos dá a sua poesia. Ao despedir-se dos seus versos, do alto de sua janela, após concluir que passa e fica, como o Universo, deseja para si mesmo – e para sempre – um cenário como aquele: um dia cheio de sol.
No poema Eros e Psique, ele relata a aventura do Príncipe fadado a procurar pela Princesa dormida e descobre, ao final da aventura, que ele mesmo era a Princesa que dormia.

Para González Pecotche, existe no interior de cada indivíduo um ser encantado, adormecido, encoberto e escondido que quer se manifestar. O encontro de Borges consigo próprio num tempo qualquer do passado poderia estar representando a culminação de uma procura incansável que muitos jamais chegam a concluir.

Depois de alguma conversa, Borges e o outro sobrenaturalmente se despediram e nunca mais se viram, nunca souberam ao certo se aquele encontro e aquela conversa foram reais, da mesma forma que eu não sei se aquele jovem brasileiro era uma personagem ou alguém que realmente existiu.

Nagib Anderaos Neto
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O Ditador Deve Morrer

O artigo fora publicado em 1941 numa importante revista cultural de Buenos Aires e chegou às minhas mãos recentemente. Naquela época o mundo estava infestado de personagens teatrais que pretendiam resolver todos os problemas com discursos inflamados, violência e enganação. Nada muito diferente do que ocorre hoje em dia quando os atores são mais astutos e tão tergiversadores como aqueles: Mussolini, Hitler, Perón e Stalin que fizeram escola pelo mundo afora.

O artigo falava dos verdadeiros ditadores e não daqueles seres que deveriam ser apagados da história humana. Sua atualidade é indiscutível porque os verdadeiros ditadores não morreram, continuam muito vivos, porque são muito sabidos, muito mal sabidos.

“Cada ser humano, desde que balbucia as primeiras palavras e põe de manifesto seus desejos, mostra com clareza meridiana a presença, dentro de si, de um ditador que se empenha por impor a própria vontade pretendendo, como conseqüência de tão caprichosa inclinação, que todos lhe façam o gosto, quer dizer, que lhe obedeçam.”

Com esse lance ágil da inteligência o autor tira o foco das atenções daquelas figuras centrando-o no próprio leitor: cada ser humano carrega dentro de si um ditador que deve ser eliminado; aquele ser inflexível que imagina que o mundo existe para servi-lo; que vê no opositor um inimigo; que não aceita nenhuma idéia diferente da própria; que traz no cenho carregado a imagem do dominador implacável.

E o autor prossegue explicando que esse ditador é a “soberba embebida de amor-próprio” e que é muito difícil matá-lo. E finaliza concluindo que “a sensatez adverte que todo proceder correto, nobre e amplo haverá de inspirar simpatia e confiança, enquanto que a postura caprichosa, autoritária e intransigente, conspirará contra a própria personalidade”.

“A soberba é a mente embriagada de ficção, o absolutismo do instinto, a negação da sensatez, o reverso da compaixão” escreveu o autor no livro Deficiências e Propensões do Ser Humano onde são esquadrinhados os defeitos mais comuns aos seres humanos e apresentado um interessante método de combate a estas características psicológicas que tanto nos fazem sofrer. E diz também que o amor-próprio “conduz o ser à egolatria, ao egocentrismo, e é a causa constante de sua má colocação onde quer que atue. Este pretende sempre o que nega aos demais. Esquece a lei de correspondência que obriga à reciprocidade do amor, do respeito, da consideração e demais deveres entre os seres humanos, e busca, em troca, embriagar-se com acentos da admiração que a si tributa”.


Quando González Pecotche escreveu esse artigo deveria estar com quarenta anos. O jovem pensador iniciara, onze anos antes, um grande movimento humanista que da Argentina se espalharia pelo mundo. Conhecido e reconhecido por sua inteligência e coragem, criara, no início daquela década, a revista Logosofia que cumpriria importante papel na divulgação de suas idéias num período em que a publicação de livros estava dificultada em função da grande guerra engendrada por terríveis ditadores. A nova ciência conformava, no seu dizer, uma especialidade científica e metodológica que tratava da reativação consciente do indivíduo.

Por isso a atualidade do conteúdo comentado: cada um de nós haverá de identificar, combater e eliminar o ditador pretensioso que se disfarça qual camaleão nas profundezas da própria psicologia.

Nagib Anderáos Neto

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Friday, September 10, 2010

Onze de Setembro e a Edificação do Futuro

Diziam que depois do ataque de onze de Setembro Nova York não seria mais a mesma cidade. Como duas grandes antenas a captar e enviar sinais para o mundo, as torres gêmeas ratificaram sua condição de símbolo, metáforas do progresso e da ousadia humana que atraíram a ira dos que pretenderam salientar o inconformismo dos que se julgam excluídos.
Nas visitas que fiz à cidade, não cheguei a subir naquelas torres, ponto obrigatório de visitação. O Empire era mais acessível. Uma caminhada pela Quarenta e Oito até o grande edifício poderia ser emoldurada com aquela ascensão vertiginosa e com a exuberante vista de se perder o fôlego. Da estátua à ponte do Brooklyn, ao Parque Central e à visão longínqua de New Jersey, o olhar circunferente extasiava-se com a visão maravilhada das alturas, da imensidão, com o som abafado da vida que não parava nunca e com uma ponta de terror pelo balançar cadenciado da estrutura que o observador atento não deixava de perceber. Ao olhar maravilhado somava-se uma sensação dolorosa de opressão, impotência e terror.
Enquanto isto, cenas do quotidiano estariam ocorrendo lá embaixo, não menos deslumbrantes ou emocionantes para o turista e o cidadão comum que adotaram aquela vibrante cidade como sua.
Poderia ser uma visita ao Frick Collection onde a arte e a criação humana desfilavam defronte do olhar do visitante apressado ou uma caminhada despreocupada pelos meandros do Grande Parque, hiato verde e paradoxal em meio aos blocos de concreto e avenidas, ou um café na calçada da Avenida Columbus à sombra do arvoredo que circundava o Museu de História Natural. Poderia ser um inesperado show de Frank Sinatra no Radio City ou uma caminhada interminável pela Broadway, desde a cidade alta até o Bairro Chinês. Poderia ser uma visita ao Metropolitan, ou uma emocionante parada no florido Strawbery Fields, presente da Ono ao pacífico Lennon. Uma visita rápida à Grande Estação onde os filmes do passado, gangsteres e despedidas chorosas voltassem à mente através da grande tela da recordação. Tudo sempre muito familiar, pois aquela cidade fizera parte do imaginário de quem conheceu São Paulo na década de cinqüenta, uma fotografia que nada devia à grandiosa metrópole americana dos contrastes.
A cidade ia se acostumando aos estandartes ausentes das torres gêmeas que foram arte, arrojo, engenharia e história.
Não pude deixar de me surpreender ao ler um artigo que fora publicado em Buenos Aires no ano de mil novecentos e quarenta e um em que o autor apontava para o perigo das edificações muito altas, alvos fáceis para o bombardeio inimigo que já se iniciara nas capitais européias. Convocava engenheiros e arquitetos para estudar as edificações do futuro.
“Nas cidades, os edifícios não deverão oferecer mais estes alvos impossíveis de dissimular e proteger, e se haverá de edificar sob a terra, profundamente, caso se queira preservar a indefesa população civil de perecer envolta em chamas ou esmagada pelo desabamento das gigantescas obras arquitetônicas”.
Com essas palavras, González Pecotche vaticinava as catástrofes que sucederam aquele mês de Julho de quarenta e um, em plena guerra, e que continuam ocorrendo até hoje, e conclui: “Tanto o homem faz e desfaz que, a continuar assim, chegará até a perder, definitivamente, a razão, e com ela todas as prerrogativas de seu gênero”.
Onze de Setembro de dois mil e um deixou para Nova York e para o mundo uma grande lição: a necessidade da reconstituição do edifício humano sobre as sólidas bases da compreensão, do respeito e da tolerância, se não quisermos perder,como disse Pecotche,todas as prerrogativas de nosso gênero.

Nagib Anderáos Neto
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Monday, September 06, 2010

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos momentos à beira-mar, é possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes nela, desde o dia que abrimos os olhos para este mundo, mas também que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui suficiente credencial para que se possa garantir que o casamento não seja um desastre, mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor, com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão que pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e anos que se resumem numa vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque ele vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na Terra tem que ser grato ao nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador González Pecotche.
Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das obras pessoais, da realização individual.
Para o pensador , a consciência individual do homem pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da vida se tornará possível expandindo-a nas obras, nas criações e nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas daquele que por aqui passou, foi útil a si e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto

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Thursday, October 01, 2009

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos dias de verão à beira-mar, é-nos possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a nossa vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes em nossas vidas, desde o dia que abrimos nossos olhos para este mundo; mas é certo, também, que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e de nossa conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui em suficiente credencial para que se possa garantir que não seja um desastre; mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, que lhe dá esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e que se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor se confunde com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão, e principalmente, pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e dos anos que resumem uma vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque o criador vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível, então, criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na terra tem que ser grato a nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador argentino González Pecotche, Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das próprias obras, da própria realização.
Para o pensador , a consciência individual do ser humano pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da própria vida se tornará possível expandindo a vida nas próprias obras, nas próprias criações e, muito especialmente, nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas inconfundíveis daquele que por aqui passou e foi útil a si mesmo e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente que podemos chamar de eternidade.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto
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Thursday, July 23, 2009

On Imortality

In a conference pronounced on March 19, 1939, Montevideo, González Pecotche ( Raumsol ) said that is very important to free human beings from the chains of destiny through a conscious process of self elevation. Ignorance forces human being to commit error, and only knowledge - the main objective of human life - can free man of that chains.
God etched activity in the Universe. To know Him is necessary to understand His Laws, because they are the manifestations of His supreme and omnipotent Will.
The Universe is the visible face of God. His Laws, the invisible.
To expand life in other persons is a form of live in eternity. So one can imortalize himself by expanding his life in other lives by continuing to live in the mind and heart of their fellowmen after generations.
Finally, he said: " The gratest tribute that human being can offer God is his own realization, the fruit of his effort, sacrifice and obedience to his high precepts, in compliance with His Will, in perfecting his faculties until he becomes like He wanted him to be when he conceived him in this image and Resemblance".

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Thursday, April 16, 2009

Os Colecionadores

OS COLECIONADORES



Há pessoas que colecionam frases e pensamentos como se fossem borboletas inanimadas, palavras mortas, folhas murchas e sem vida com as quais se marcam as páginas esquecidas de livros que nunca terminam de ler. São os colecionadores de coisas inanimadas que perigam transformar-se nelas atravessando o tempo exalando tristeza e desolação.
Lembra-me um livro que nunca cheguei a terminar de ler na adolescência cujo título era “Hei de Vencer”. Durante muitos anos deixei aquela capa voltada para mim em na pequena escrivaninha imaginando que repetindo aquelas palavras diariamente eu chegaria a realizar todos os meus sonhos. A vida ensinou-me que palavras sem vida nada podem transformar; e que eu deveria criar as minhas próprias palavras infundindo-lhes vida através do esforço constante por compreender-me e o que me cerca, e realizar a impostergável tarefa do aprendizado diário.
Repetir palavras sem vida é uma tarefa triste, inútil e sem esperança.
Lá pelos idos de 1968 ganhei de presente “O Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro, o misterioso heterônimo de Fernando Pessoa. Tio Paulo de Lima presenteou-me a obra que habitara sua biblioteca por muitos anos numa daquelas frias e úmidas noites paulistanas de Julho em sua casa à Rua Arthur de Azevedo. Era uma terceira edição datada de 1958 realizada pela Editora Ática de Lisboa que ele havia comprado na livraria Pedro Siciliano da Rua Dom José de Barros. Eu era um jovem que gostava de leitura e o presente era especial, do acervo pessoal daquele velho homem apaixonado pela vida e pela literatura. Devorei a obra no dia seguinte, mas a página 23 do “Guardar de Rebanhos” fixou-se para sempre em minha recordação. Havia uma flor seca e esmagada entre as páginas 22 e 23 onde o poeta dizia:

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para as árvores,
E de quem desce os olhos pela Estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...
Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda pelo campo
E triste como esmagar flores em livros
E por plantas em jarros.

Ao olhar e tocar aquela seca flor esmagada que até hoje está ali em meu pequeno livro, senti a angustia de Cezario Verde, um preso em liberdade a andar pela cidade onde tantas vezes se tem a impressão de que tudo é falso, artificial, antinatural.
Fernando Pessoa – na voz de seu mestre-heterônimo Alberto Caieiro – faz-nos refletir sobre a inutilidade de colecionar coisas mortas, palavras sem vida, conhecimentos inanimados.
No instrutivo livro “Diálogos”, do pensador Carlos Bernardo González Pecotche, em seu colóquio de número 31, diz o autor:
“Uma coisa é aprender pelo mero fato de saber algo novo, e outra, quando o saber é empregado para alcançar uma efetiva superação. No primeiro caso, os ensinamentos viriam a ser como as borboletas que anunciam o bom tempo, alegrando o campo florido das ilusões com o vistoso colorido de suas asas delicadas e graciosas. É fácil tocá-las e mais fácil ainda deleitar-se com elas, espetando depois seu pequeno tórax para colecioná-las sobre um cartão opaco”.
“Todavia, enquanto se faz isto, o tempo bom que elas anunciaram vai passando sem ser aproveitado, perdendo-se assim oportunidades difíceis de recuperar.”
“Consideremos, então, que enquanto os conhecimentos se mantêm ativos em alguns, aproveitando com eles o bom tempo, em outros permanecem estáticos como as borboletas que jazem espetadas na cartolina do colecionador”.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Monday, March 09, 2009

A Paciência e o Tempo

Não importa se vamos devagar, o importante é não parar, teria dito o pensador chinês Confúcio (551ac – 479ac), para quem transportar um punhado de terra todos os dias permitiria fazer uma grande montanha. Para ele, não corrigir as nossas falhas seria o mesmo que cometer novos erros. Seus ensinamentos não conformavam uma religião, senão um guia comportamental para ser posto em prática. Consta que ensinara que cada um deveria corrigir a própria conduta antes de tentar corrigir a alheia.

A síndrome da urgência é uma doença da modernidade, apesar da sabedoria popular já nos ter prevenido sobre os seus prejuízos e os da impaciência. A pressa é inimiga da perfeição, costumávamos ouvir dos mais velhos. E para com quem tem urgência, devemos ter paciência.

O bem mais precioso da vida é o tempo que em essência é a própria vida; para ganhá-lo, seria necessário aprender a pensar, criar soluções para os problemas do dia-a-dia; idéias e pensamentos que fossem úteis a todos.

As pessoas apressadas, as que estão sempre a cobrar urgência de si e dos outros, são as que mais violentam o tempo e a vida, as que mais erram, pois fazem tudo superficialmente, apressadamente.

A natureza segue seus processos e ciclos, não tem pressa, é uma mestra exemplar.

As invenções humanas formas de conquistar tempo livre que depois é desperdiçado por não se saber o que fazer com ele. São os paradoxos da inteligência capaz de imitar a natureza para inventar coisas maravilhosas, e depois deixar que aquelas modernidades venham destruir o próprio homem, pelo excesso de comodidade e falta do que fazer, do que pensar, no imenso tempo que sobra.

O que fazer? Como liberar-se da escravidão imposta pelos ponteiros do relógio e pela urgência? Como adiantar-se ao tempo?

A pressa é uma doença causadora de muitos erros, acidentes e desentendimentos; uma espécie de urticária psicológica que atormenta a todos, tornando as pessoas desatentas, esquecidas, ineficazes. Levam-nas a falar demais, correr demais e ser superficial.

Todos vivem muito apressados, pressionados por compromissos e horários, numa louca e absurda carreira que chega a comprometer a saúde física e psicológica. Ao fazer tudo apressadamente, desesperadamente, a qualidade do que se realiza fica comprometida; a correria leva ao automatismo, à rotina, à desatenção, ao desprezo pelos detalhes que mereceriam um olhar mais detido, cuidadoso. É como se as pessoas corressem atrás de um futuro que não chega nunca; como se almejassem um final sobre o qual elas se precipitassem sem saber qual seria este desfecho.

A rotina e a pressa são causadoras da depressão, do vazio e da tristeza. Fazer tudo sempre da mesma maneira, sem nenhuma variação ou renovação, faz fracassar a capacidade de iniciativa da inteligência submergindo o indivíduo no marasmo do tédio e na desconfortável sensação de inutilidade.

Aproveita-se o tempo fugindo da rotina, rompendo com os hábitos, as mesmices, os preconceitos. "Sejamos como os rios que renovam constantemente suas águas", escreveu certa vez González Pecotche, o criador da Logosofia.

Ao agir mecanicamente, rotineiramente, não se pensa no que se faz; vive-se distraída e esquecidamente. É necessário criar o hábito de pensar, aperfeiçoar tudo o que se faz e colocar novas atividades e novos estímulos na vida individual.

Não sejamos como Sísifo, o trágico herói mitológico condenado a realizar por toda a eternidade um trabalho inútil e sem esperança. Transformemos a vida renovando e aperfeiçoando nossos pensamentos, criando novas atividades e superando as próprias condições pessoais.

Numa cidade grande parece que todos estão a correr dos outros e de si para se entocar num fosso ou se precipitar numa depressão que os mais astutos e careiros médicos de alma não conseguem curar.

A pressa é uma fuga, incomoda hóspede psicológica, uma incompreensão, falta de conhecimento. Por detrás dela há um defeito que se chama impaciência, doença que danifica o sistema nervoso.

No livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, González Pecotche diz que “o impaciente é um escravo do tempo; deste tempo fantasmagórico que nada tem a ver com o autêntico, que tão freqüentemente o homem dissipa em banalidades, justamente por desconhecer o seu real valor”.

E o autor sugere que quem padeça dessa doença se exercite no cultivo da paciência inteligente e ativa, a que “além de infundir serenidade torna o homem compreensivo, permitindo-lhe pensar com utilidade e proveito, e estar atento às suas necessidades e deveres durante todo o tempo, curto ou largo, que abarque a espera”.

Em síntese, saber esperar é o mesmo que saber viver, desde que a espera não seja a passiva, a que sempre nos faz sofrer.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Tuesday, October 31, 2006

Por Uma Nova Educação

Educar deveria significar conduzir, guiar, ao invés de impor, inculcar; muito mais amplo do que definir, colocar limites. Não é conveniente encarcerar conceitos em definições estáticas e transmiti-los friamente aos educandos como coisas mortas, folhas murchas com as quais se marca as páginas da própria história.
Um novo método pedagógico deveria orientar e guiar os jovens através de um caminho que os conduzisse para encontrar dentro de si as suas capacidades e desenvolvê-las. Tudo o que é imposto é frio, dogmático, sem vida. Tudo o que é proposto, sugerido, com o intuito de guiar a reflexão e a inteligência do educando para que chegue, por própria conta, aos conhecimentos e às mudanças que devem operar-se no indivíduo, traz a vida e a alegria que a Natureza nos ensina em sua constante transformação.
Enclausurar Deus, por exemplo, numa definição, resultaria pequeno, muito pequeno; não basta senti-lo, mas aproximar-se dele através do conhecimento do que nos cerca e, especialmente, do que somos e podemos chegar a ser.
“A Sabedoria de Deus está plasmada na Criação, enquanto que a do homem consiste em conhecê-la e servir-se dela para superar as etapas evolutivas de seu gênero”, escreveu o pensador C. B. González Pecotche.
Não se trata de receber definições e enclausurá-las em frios compartimentos mentais, senão conhecer os conceitos e experimentá-los através da compensatória tarefa da transformação pessoal. E conclui o pensador que o homem busca o conhecimento “porque é o meio pelo qual chega a compreender a sua missão e a sentir a presença em sua vida deste ser imaterial que responde ao influxo da eterna Consciência Universal e é portador, através dos tempos, da existência individual.”
Portanto, o conhecimento move o homem para que se eleve, para que deixe de ser o que é para ser algo melhor; e é o grande agente criador das possibilidades humanas.
As frias definições afastam o ser humano da verdade, enquanto que o conhecimento amplia os horizontes aproximando o homem de si mesmo, de seus semelhantes e de Deus.
Uma nova Pedagogia requer a reeducação dos adultos que terão a seu cargo a instrução da humanidade do futuro. O que tem sido prática corrente na educação infantil deverá ser revisto, estudado novamente. Os sistemas de instrução e os conceitos básicos empregues não têm funcionado convenientemente. Instrui-se para tudo; menos para o que mais interessa: a convivência pacífica entre os seres humanos.
A humanidade está dividida em raças, religiões, camadas sociais, culturais, partidos políticos, etc. Os sistemas pedagógicos são divisionais, separatistas. Cada agrupamento arvora-se como dono absoluto da Verdade única. Não compreende que ela surge da união dos homens pela compreensão de sua realidade fragmentada da Grande Realidade Universal da qual todos formam parte.
Às crianças ensina-se, por exemplo, e equivocadamente, que devem ser as melhores em tudo o que fazem; melhores que as outras. Inocula-se assim, desde muito pequenas, o nocivo e maligno vírus do separatismo, de uma pseudo-superioridade; a ilusão da felicidade alcançada quando se chegar a ser mais e melhor do que os outros. O melhor da classe,no esporte, o melhor profissional, o mais admirado.
Na Pedagogia da Escola do Futuro, as crianças serão instruídas no sentido de serem melhores que elas mesmas; que o aperfeiçoamento pessoal tenha um cunho essencialmente humanista: ser melhor sendo mais útil para si mesmo e para os semelhantes; para conviver harmonicamente com.
O amor ao próximo deixará de ser uma figura de retórica para representar a compreensão cabal de um fragmento da Grande Verdade e, como tal, será vivenciado, experimentado, e não apenas discursado e propalado.
Sem o entendimento não há compreensão. Sem compreensão não há realização. Sem realização, os seres humanos seguirão inimigos de si mesmos; filhos deserdados de um Criador que não chegaram a compreender.
Muitos educadores preferem a verdade à fantasia na orientação da infância e da adolescência. Compreendem que de tanto ouvir e transmitir fantasias e coisas irreais, a vida pode se transformar numa grande mentira.
Alguém diria a uma criança que a Terra não se move e que é o centro do Universo? Ou que os trovões existem porque os deuses estão empurrando móveis no Olimpo?
Na infância da humanidade os homens acreditavam nessas e noutras fantasias por ignorância, falta de conhecimento. Galileu Galilei, o grande cientista italiano, quase foi queimado na fogueira por sustentar que a Terra não era o centro do Universo. Salvou-se porque abjurou, negou a verdade que havia vislumbrado para não ser condenado.
Infelizmente, a grande maioria dos educadores acha louvável a fantasia, a ilusão e o irreal nas histórias que transmitem às crianças: animais que falam, super-heróis que voam, desenhos animados que deseducam e transmitem a violência às crianças que depois, quando adultas, não entendem o porquê das crueldades e da violência que imperam no mundo.
A criança cria suas fantasias porque em sua inteligência incipiente só funcionam a memória e a imaginação e seu entendimento ainda não despertou para que compreenda o mundo com suas belezas e maldades criadas pelo homem. Não é necessário que os adultos lhe venham acrescentar ilusões e mentiras que nada têm a ver com a realidade, e sim que a protejam de certas realidades cruéis deste mundo que não suportaria defrontar por não estar preparada para entender.
Conta-se que havia um pai muito cruel, de péssimo caráter, e que a zelosa mãe não deixava que seus pequenos filhos soubessem dessa realidade. Quando falava dele para os meninos, nunca deixava transparecer aquela realidade por compreender que eles deveriam crescer para poder, por própria conta, ter a capacidade de julgar o pai.
Proteger o entendimento e a sensibilidade de uma criança faz parte de uma docência positiva que afasta a criança do sofrimento pelo choque prematuro com a realidade. Da mesma forma, o seu entendimento deve ser preservado da mentira, do irreal e da ficção para que possa despertar, no futuro, livre de preconceitos, temores e da depressão.
Educar para a vida é muito mais do que dar escola gratuita e ensino fundamental; é preparar os entendimentos para que despertem do sono milenar que tem submergido a humanidade na inércia mental e prostrados os espíritos nos cárceres da ignorância.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
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Liberdade Pelo Pensamento

É possível que o temor da morte provenha do fato de se pensar que tudo termina com a vida.
A morte verdadeira é o não pensar, uma tirania que aprisiona a inteligência, uma escravidão mental.
Como sentir a eternidade dentro de si?
Não estamos morrendo todas as noites para despertar no dia seguinte?
Na Comédia de Dante, diz o poeta: “O pior dos suplícios é sentir-se morto sem acabar de morrer, é sentir-se quase vivo estando morto, e ansiando morrer, seguir vivendo”.
A morte tem a ver com a falta de estímulos, de interesse e esperança pelo futuro.
O essencial é a atividade, o movimento, o equilíbrio. É necessário abandonar a inércia e a desesperança, construir um novo futuro e um passado, ressurgir das cinzas como o pássaro imortal, uma verdadeira ressurreição que a lenda de Lázaro não pôde explicar.
Por que o espírito humano busca o conhecimento e o aperfeiçoamento? Por que busca o acercamento com Deus?
A liberdade do homem é construída sobre o pensar. Quanto mais pensar, mais livre será. Mas o que é pensar? A movimentação discricionária de pensamentos na mente seria pensar? Não, isso não é criar soluções luminosas, optar por caminhos, selecionar o que convém para o bem e felicidade próprios e alheios.
Ao pensar, opomo-nos à fatalidade e liberamo-nos do destino comum, da vida comum, da mediocridade.Trata-se de opor à fatalidade um destino próprio, construído pela pessoa, que será viável através do conhecimento, do domínio dos pensamentos.
Qualquer obstáculo pode ser transformado em instrumento de aperfeiçoamento pessoal através da utilização da inteligência. Um defeito pessoal que nos incomoda poderá mover-nos para combatê-lo, extirpá-lo, para mudar. E mudando poderemos ir construindo um novo futuro, um novo destino. Nenhuma idéia diferente ou oposta à do aperfeiçoamento poderá nos impulsionar para a construção de uma vida mais ampla e feliz.
Um dos preceitos gravados no Templo de Delfos era o “Conhece a ti Mesmo”. Platão diz através de Sócrates - personagem de um de seus escritos -: “Parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha a examinar coisas que não me dizem respeito... Não são as fábulas que investigo; é a mim mesmo”.
Esse conhecimento implica conhecer os defeitos pessoais. É muito comum censurarmos os dos outros. Ao evitar, em nós, os que censuramos, estaríamos realizando uma pequena parte daquele Conhecimento inscrito no Templo grego.
Assim como a fome e a sede são sinais de nosso organismo indicando que precisamos nos alimentar, nossos defeitos são sinais que nosso organismo psicológico nos dá indicando que devemos mudar. E o nome dessas mudanças é “educação espiritual”; construção de uma nova conduta que deverá nos ocupar diariamente, da mesma forma como dormimos e nos alimentamos, para não cair na inanição mental, na indigência espiritual.
Para González Pecothe, o criador da Logosofia, “o quadro das deficiências que a criatura humana apresenta, desde que nasce até o final de seus dias, poderia parecer desalentador. Todavia, isso não deve abater o seu ânimo, porquanto é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica, suportando docilmente a maioria dos desgostos e depressões que diariamente ocasionam”.

Nagib Anderáos Neto

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