Wednesday, April 17, 2013

A Intolerância

Nagib Anderáos Neto |  Filtro familiar:desativado  |  Sair
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A Intolerância


Giordano Bruno - o pensador italiano que foi queimado vivo na Idade Média por ter defendido a idéia da infinitude do Universo e de sua transformação contínua - é um exemplo eloquente do obscurantismo e da intolerância daquela época quando todos deveriam prestar aceitação cega às “verdades” estabelecidas.

Algum tempo depois, Galileo Galilei (1564 - 1642) teve de abjurar para não ter o trágico fim do compatriota. Ele defendia a idéia, absurda para a época, de que a Terra não era o centro do Universo. Embora tendo escapado à morte, teve de conviver com uma prisão domiciliar até o final de seus dias.

Spinoza, como Sócrates, foi condenado pelo poder político local por opor-se às idéias dos dirigentes, por não cultuar as suas personalidades e nem as divindades do Estado, por afirmar que a verdadeira salvação consistiria no conhecimento que é oposto ao fenomênico e sobrenatural que forjam as bases do ateísmo. Para ele, não poderia haver um Deus ou um conhecimento propriedades de algum agrupamento porque Deus e o conhecimento não são contingentes e nem privilégio de ninguém, por serem imanentes.

Estas páginas trágicas de nossa história servem para uma reflexão sobre a intolerância e suas conseqüências, pois ela continua tão presente como naqueles negros dias medievais.

Dentre os defeitos ou deficiências psicológicas do ser humano, a intolerância é a que mais dificulta a convivência. E essa dificuldade, a de conviver, é um grande obstáculo para a evolução humana que necessitará do concurso inestimável de seu semelhante na jornada de aperfeiçoamento que deverá empreender durante a sua vida; se não sabe conviver, terá a sua evolução limitada.

A intolerância implica  falta de respeito às idéias alheias,  inflexibilidade,  dureza de juízo.

É difícil aceitar as idéias de outras pessoas quando não coincidem com as nossas; isto porque fomos educados nessa rigidez comportamental que nos impede compreender que podem existir idéias que difiram das nossas e os que as defendam não são, necessariamente, nossos inimigos.

A intolerância leva o ser humano a não admitir oposição. O intolerante vê no opositor um inimigo sem aperceber-se que a oposição pode ser construtiva, pois nos faz pensar, refletir sobre nossos pontos de vista e concluir, algumas vezes, que podemos estar errados. Os ditadores não admitem oposição. O opositor deve ser afastado, eliminado; só assim o ditador sente-se confortável.

Os que impõem, os impostores, estão aí, como naqueles negros dias medievais; nos governos, nas empresas, em instituições diversas, nas mentes dos seres humanos, pensamentos retrógrados que nos encarceram numa rigidez milenar e que têm afastado o ser humano de si mesmo e de seus semelhantes. Surpreender esta realidade em si  e trabalhar para eliminar esse tipo de pensamento é o único caminho capaz de livrar-nos desse obscurantismol.

Educar as crianças no sentido da flexibilidade psicológica, desde que as idéias antagônicas não firam os princípios básicos da harmônica convivência , significa incutir no educando a tolerância que lhe permitirá respeitar o seu semelhante e ser respeitado.


NAGIB ANDERÁOS NETO
neto.nagib@gmail.com


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Thursday, March 29, 2012

Espinosa

Visto por muitos de seus conterrâneos como inimigo da Igreja e do Estado, Espinosa foi combatido e ofendido em não poucas obras de sua época por ilustres pensadores como Voltaire e Leibniz, embora tivesse admiradores não menos importantes como Goethe e Herder. Transitou entre o maldito e o bendito (Baruck) que carregava no nome.
Ele nasceu em 1632 em Amsterdã numa família judia vinda de Portugal por causa da Inquisição. A comunidade judaica não o aceitava por criticar as contradições do Antigo Testamento. Foi perseguido, expulso e amaldiçoado pela sinagoga. Para sobreviver, fabricava cristais de lentes. Lutou por defender a liberdade de pensamento, pois a falta dela criaria a corrupção, a falsidade e a hipocrisia.
Morreu solitário aos 44 anos sem que o mundo conhecesse suas obras mais importantes. A solidão, o anonimato e a coleção de inimigos foram suas marcas na curta trajetória neste pequeno planeta.
Como bem disse Novalis, “Espinosa é um homem ébrio de Deus”. Diferentemente de Descartes, para ele a filosofia começava com Deus, enquanto que para o francês, a certeza de Deus vinha da certeza de si mesmo.
“Não podemos estar mais seguros da existência de nenhuma coisa que a do ser absolutamente infinito e perfeito, ou seja, Deus. Como sua natureza exclui toda imperfeição, elimina, desse modo, todos os motivos para duvidar de sua existência e proporciona a maior certeza sobre ele”, escreveu.
É um Deus diverso do ortodoxismo judeu e cristão, pois para Espinosa o homem é um pensamento de Deus que é tudo e está em tudo.
Se Deus está em tudo e não pode ser revelado por nenhum profeta ou mensageiro, fica então entendido porque o filósofo foi considerado um inimigo pelas religiões constituídas.
Para ele, Deus é razão (logos), como também coração, amor; a fusão da suprema razão com o supremo amor. Difundiu ser importante que a Verdade fosse experimentada, e não somente estudada, pois ai surgiria a compreensão do amor. Em sua ética encontramos a questão da liberdade e do livre arbítrio como algo a ser conquistado; quanto maior liberdade, maior responsabilidade, que muito teria a ver com o grau de consciência.
Existe um paralelismo entre o pensamento de Spinoza e o de Sócrates que dizia que o homem não era o compacto, o tocável, senão o invisível, o da essência. Afirmava que todo o ser humano tinha em seu interior tudo para se desenvolver; que deveria primeiro conhecer-se, e depois o que o cercava; que o princípio da sabedoria consistiria no reconhecimento da própria ignorância.Ambos foram condenados pelo poder político, por opor-se às idéias dos governantes e não cultuar suas personalidades, e nem as divindades do Estado.
Apesar de ter a oportunidade de fugir, o filósofo grego não o fez. "Sócrates é imortal. Podem matar o invólucro de Sócrates, mas Sócrates é imortal." E, segundo Platão, enfrentou a morte com serenidade. Talvez por ter compreendido que a morte verdadeira fosse o não pensar, a submissão aos pensamentos pensados por outras pessoas e à cruel ditadura dos mercadores da verdade.
Para Spinoza, a verdadeira salvação consistiria no conhecimento que é oposto ao fenomênico e sobrenatural que forjam as bases do ateísmo. Afirmava que as religiões sobreviveram através de dogmas rígidos.
Olhar as coisas sob a perspectiva da eternidade era uma das principais bases de seu pensamento. Deus é tudo, e tudo é Deus. Pensar em si mesmo é pensar em Deus, e não uma forma de egoísmo. A substância essencial que tudo interpenetra é Deus que tudo rege e se confunde com suas leis que podem ser conhecidas.
De qualquer forma, apesar do avanço conceitual e do distanciamento dos preconceitos vigentes, Espinosa não foi capaz de vislumbrar a forma de se realizar o contato consciente com estas realidades, e nem como empreender um processo de aperfeiçoamento individual.Mais intuitivo que objetivo, racional, deixou um legado importante para o pensamento das gerações que o sucederam.

Nagib Anderáos Neto
www.twitter.com/anderaosnagib

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Thursday, March 10, 2011

Agnosticismo Versus Conhecimento

Tudo o que sei é que nada sei, teria dito Sócrates, a personagem de Platão. Eu menos, pois nem sei se nada sei, escreveu Fernando Pessoa no poema Agnosticismo Superior.
O agnosticismo só admite conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada. Ele trata as questões metafísicas como discussões inúteis, por serem, em sua visão, realidades incognoscíveis.
Quem formulou o tema por primeira vez foi o biólogo inglês Huxley no século XIX. Em sua origem, a palavra significa aquilo que é oposto ao conhecimento. O sentido empregue pelo cientista parece ter sido de que Deus jamais poderia ser conhecido.
Os homens criaram um deus a sua imagem e semelhança, uma personagem na qual se poderia acreditar ou não. Nesse sentido, o agnóstico seria a pessoa que não aceita ou não acredita naquela invenção, pois o deus criado pelos homens expulsou-os do paraíso por terem eles provado o fruto proibido do conhecimento, quando uma inteligência esclarecida haveria de supor que somente através dele, o conhecimento, se poderia aproximar-se Dele.
Paradoxalmente, os agnósticos não acreditam também na não existência de Deus, pois da mesma forma, para eles, que a existência de Deus não pode ser provada pela razão, sua inexistência também não o pode.
São lucubrações realmente confusas. Se Deus se confunde com a própria criação, como um homem se confunde com sua vida, seus filhos, seus amigos, suas obras, Ele pode, sim, ser conhecido.
O conhecimento do Universo físico, tal como a ciência tem empreendido, é uma forma de se chegar a Ele. O conhecimento da figura humana em sua conformação psicológica e espiritual, alem da biológica, é também uma complementação daquele. Pensamentos, sentimentos e emoções não são físicos, manifestam-se através do corpo, mas são metafísicos e cognoscíveis. Se atentarmos bem, a realidade do mundo metafísico é tão ou mais eloqüente que a do físico, por ser aquele o mundo das idéias, dos ideais, dos projetos, dos sentimentos, dos pensamentos e sonhos. Ao sonhar, podemos vivenciá-lo como quando experimentamos uma maçã. Todo artista toca neste mundo ao criar a sua obra e experimenta uma sensação sublime e indizível ao fazê-lo. Qualquer ser humano ao sonhar adentra a este mundo ao tornar-se ator e espectador naquela viagem.
Para os evolucionistas, o homem e o macaco teriam uma ascendência comum. Eles descartam a existência de Deus e concebem todo o Universo como obra do acaso. Os criacionistas cristãos acreditam que Deus criou o mundo como ele é; e assim também o homem. Os criacionistas evolucionistas julgam que Deus criou e foi o início de um Universo em permanente movimento, evolução e transformação, e que está presente em sua Obra.
Não podemos deixar de considerar que a biologia evolutiva é uma realidade e que há muito o que descobrir e aprender sobre o processo evolutivo. A realidade da evolução é incontestável; e o homem pode experimentá-la dentro de si conscientemente, e não apenas constatá-la materialmente. A evolução não se dá apenas por seleção natural. No homem ela pode ser realizada por seleção mental de pensamentos e idéias que tendam à evolução. Por tal fato, não é uma ilusão ponderarmos que somos súditos privilegiados nesta parte do Universo conhecida por termos mente e sensibilidade; capacidade de criar.
A crise que se vive, mais do que ambiental e cultural é uma crise espiritual que tem afastado o ser humano de seus irmãos pelos fanatismos, pela idolatria e a ignorância. Tudo evolui. O homem precisa evoluir, mental e espiritualmente falando, para deixar de ser cético e crente no que desconhece. Só o conhecimento libera; e a ele não se chega senão através de processos que tendam à evolução.
Não somos um tipo de macaco que reluta admiti-lo. Somos seres humanos que evoluem biologicamente e que podem chegar a fazê-lo espiritualmente se decidirem tomar as rédeas do destino e transformar-se psicológica e espiritualmente; à matemática biológica se deverá agregar a psicológica e espiritual que permitirão a complementação da evolução material. O Universo e o homem não são relativos.
O ponto de conciliação entre criacionistas e evolucionistas parece ser aquele que aponta o Universo como a face visível de Deus, e suas Leis, a invisível.
O homem nasceu para ser livre. Sua tristeza é ver-se acorrentado à escravidão mental imposta por preconceitos que sobrevivem em sua mente incompreensivelmente. Cada qual pode ser seu próprio Deus experimentando aquela liberdade e a consciência de existir. Os grilhões mentais são mais cruéis que os que sangravam os corpos de nossos antepassados que aqui foram a nossa vergonha e também a de Darwin.

Nagib Anderaos Neto
WWW.nagibanderaos.com.br

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Wednesday, March 02, 2011

Observar e Pensar

O que é observar? Seria o mesmo que pensar, refletir, recordar, raciocinar?
O que se deve observar? O que tem a observação a ver com o entendimento?
E a inteligência, onde fica?
Observar não é apenas olhar, contemplar, senão ver e entender. É uma capacidade da inteligência que pode ser desenvolvida, educada e utilizada para o bem próprio e coletivo. É necessário que um objetivo guie a observação. A palavra inteligência provem do latim e significa capacidade de ler por dentro, penetrar no sentido íntimo do que se vê. Se olho para os rios e os prados absorvendo e aprendendo a calma da Natureza em seu incessante movimento, dei um destino prático à observação porque me espelhei no que vi. Se olho para as paisagens interiores, pensamentos tumultuados e intempestivos que estão na mente e exercito-me na imposição de ordem e disciplina que harmonizem aquelas paisagens, dei um destino positivo para a observação que se confunde com a reflexão, o pensar, a recordação, a inteligência - o sol interior que cada ser humano tem e que pode brilhar mais e mais, libertando-nos da escuridão - , pois o maior cego não é o que não quer ou não pode ver, senão o que não quer ou não pode entender. E os primeiros entendimentos que devemos realizar são os que possamos ter sobre nós.
É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si. Julga-se, em geral, em função de apreciações alheias, pelo que se ouviu dizer, e não pelo que realmente se observou. A observação consciente – conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências – deveria servir para corrigir as nossas imperfeições. O que vemos de desagradável na conduta de uma pessoa levar-nos-ia a verificar se não existe em nós aquela característica. Mas o ser humano não sabe olhar para si; olha o mundo como se não fizesse parte dele; vê, mas não enxerga e nem entende que todo aquele cenário está ali para transformá-lo em diretor e ator do espetáculo da sua vida. Ao invés disso, gasta seu tempo admirando ou criticando outras vidas e mundos, esquecendo-se de si, e que dentro dele existe um pequeno universo no qual poderia viver e ser feliz. Essa falha gritante da cultura engendrou nas mentes a tendência ao escapismo; viver fora da realidade, sempre a fugir de si, no trabalho, diversões, estudos, leituras, nas platéias, pois não consegue conectar aquilo que acontece à volta com a sua realidade. Olhar para a Natureza e seguir o exemplo de paciência, movimento, renovação, evolução, e exercitá-lo no dia-a-dia através da capacidade de pensar, criar e se modificar.Ao invés disso, vamo-nos transformando em atores que decoram e interpretam falas escritas por outros que foram atores como nós, repetindo frases e cenas que compõem as tradições que – como disse González Pecotche – são o cemitério das idéias.
Romper com essa inércia é o grande desafio da humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si e educar-se, o homem do futuro transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência no qual se encontra num cenário condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.
Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates dá-nos a pauta de uma conduta, caso queiramos aprender e evoluir. Será necessário arrancar a máscara da personalidade que nos leva a aparentar aquilo que não somos, mas que imaginamos. Se ela não estiver aderida à epiderme psicológica, poderemos iniciar o caminho para construir a individualidade.
Já se disse que os homens são livres, mas não o sabem; nascem livres e vão perdendo esse dom que lhes fazia sentir imortais, verdadeiros super-homens naquele formidável universo infantil. Esse seria o tão bem guardado segredo dos tiranos, o fato de saber que os homens podem chegar a ser livres novamente, mas não enxergam isso, transformando-se em escravos nas mãos daqueles déspotas.
A liberdade é um dom que, se não utilizado, pode desvanecer-se, da mesma forma que a inteligência e a sensibilidade humanas.
É comum ouvir-se dizer que o ser humano usa um quase nada de sua capacidade mental; que uma mente preparada poderia realizar verdadeiros prodígios. Por que isso acontece? Por que a mente humana é pouco utilizada? Quais as causas dessa deficiência? O que fazer para tornar a mente mais eficiente?
Essa falta de liberdade é como um cárcere cujos barrotes são o temor de pensar por própria conta, os preconceitos, a ignorância sobre si e as Leis que regem o Universo.
Todos querem a liberdade, trazem-na dentro de si como algo que não se realiza, e, no fundo, sabem que o ser humano não deve curvar-se perante poderes quaisquer.
Se o homem, como diziam os gregos, é a medida de todas as coisas, por que vive tão esquecido de si, tão ausente, entretido com o que não é essencial por ser passageiro e efêmero?
A verdadeira liberdade é a de pensar. É assim como o espírito humano respira,criando,tendo um domínio sobre os pensamentos que perambulam por aí fazendo os estragos que sabemos quais são.
Ser livre é usar com liberdade a inteligência, suas faculdades, e não somente a memória e a imaginação,como nos têm pretendido impor aqueles que nos querem manter atados às rédeas da submissão. Os tiranos, os ditadores, os inimigos da liberdade não querem que o ser humano pense, porque tal grito de liberdade é a ameaça ao poder que as ânsias de domínio desenham em suas mentes doentias.
Pensar, observar, raciocinar, refletir, combinar e julgar são algumas faculdades da inteligência que não têm sido muito exigidas e desenvolvidas pelo ser humano pode deixar de ser joguete e escravo de pensamentos alheios que nada têm a ver com a felicidade almejada pelos que sonham com a liberdade.

Nagib Anderaós Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Friday, November 12, 2010

Deus e a Consciência

Melhor que dar o peixe ou ensinar a pescar é ensinar a pensar. Mas antes de fazê-lo, será necessário aprendê-lo. Pensar é um ato de liberdade, um aprendizado espiritual que exige saber julgar-se, querer melhorar, sentir a necessidade de evoluir, realizar. E pensar no quê? Em Deus, em si mesmo e nos semelhantes, ensina González Pecotche, o pensador que dedicou sua vida ao culto da nobre função que as crenças e os preconceitos impedem realizar.
Deus se confunde com o homem, com todos os homens, sem nenhum privilégio ou intermediário. Está presente no templo interior que existe no coração de todos e que se chama consciência, a que deveria reger todos os atos humanos, o Deus interior, a bela adormecida que ali jaz prostrada sob as sombras do ceticismo, da ignorância, das crenças e dos preconceitos.
O homem nasceu para pensar e não apenas para trabalhar, se divertir e se conformar com a entristecida vida rotineira dos que imaginam que a felicidade se resume na posse de coisas que perdem o seu valor quando conquistadas.
O principio do processo de liberação espiritual pelo pensar resume-se no reconhecimento das próprias limitações e na identificação dos preconceitos e crenças que aprisionam a inteligência nas masmorras da ignorância. E a maior ignorância é ignorar-se, não se ver, desconhecer-se. Mesmo o mais letrado, o mais culto, pode ser um ausente de si, de sua consciência.
Mais do que o axiomático ”conhece-te a ti mesmo” do ilustre personagem mencionado por Platão em seus diálogos, sobressai-se o “tudo o que sei é que nada sei”, principio de todo o processo de liberação pelo pensar.
Se não me conheço, desconheço minha capacidade de criar. Se não sou um pequeno criador, não posso sentir e compreender o grande Criador.
Todo o ser humano pode ser um criador, mesmo não sendo artista, e compreender melhor o Grande Criador, o Deus único, tão distante do materializado homem moderno. E a maior obra de arte que um ser humano poderia realizar seria a de criar a sua pessoa tornando-se um indivíduo melhor, em constante aperfeiçoamento; essa sim seria a obra-prima, a maior obra de arte, a única que poderia merecer tal classificação.
Deus não está nas alturas, nos livros, nos templos ou nas desgraças; nem nas pestes ou doenças incuráveis. Ele não traz o tom pesado e vingativo; não pune, não castiga, não deprime; ensina, reconforta e traz esperança. Está num sorriso infantil, na emoção de uma descoberta, num instante de reflexão, na generosidade de quem ensina. Maior que tudo quanto existe, que o mesmo Universo, tem em cada coração um pequeno templo despojado do ouropel e da pompa, do ar pesado da intolerância e da incompreensão. Para penetrar em seu interior, muitas vezes inacessível à pretensão e à ignorância, é exigido que se desvencilhe da pesada carga de preconceitos, da incompreensão e dos defeitos que vêm dominando a mente humana, impedindo-lhe de contemplar a Verdade pela névoa da ignorância que tem cegado o seu entendimento.
Um homem afastado de si e dos semelhantes é desatento, distraído de Deus, inconsciente.

Nagib Anderáos Neto.

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Monday, September 06, 2010

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos momentos à beira-mar, é possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes nela, desde o dia que abrimos os olhos para este mundo, mas também que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui suficiente credencial para que se possa garantir que o casamento não seja um desastre, mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor, com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão que pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e anos que se resumem numa vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque ele vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na Terra tem que ser grato ao nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador González Pecotche.
Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das obras pessoais, da realização individual.
Para o pensador , a consciência individual do homem pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da vida se tornará possível expandindo-a nas obras, nas criações e nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas daquele que por aqui passou, foi útil a si e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto

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Friday, September 18, 2009

Sócrates e a Busca da Sabedoria

Sócrates era visto como um corruptor perigoso da juventude. A todos exortava a que não se preocupassem tanto com as coisas materiais, senão com a alma; que se tornassem pessoas boas. Um sábio que dizia nada saber e que poderia ter sido um ponto de inflexão cultural e dos costumes, mas não o foi. Tomou da cicuta cumprindo o destino que lhe fora imposto pelos juízes e políticos para os quais um povo que pensasse não seria conveniente. Quando o filósofo disse ser imortal, quis, talvez, significar que seus pensamentos e idéias sobreviveriam à morte e seguiriam pelos séculos como fachos luminosos para as inteligências que se decidissem por pensar.

Para o filósofo grego, nada mais interessava que a Verdade e a Justiça; por tal postura foi condenado pelo Estado decadente.

Para seu discípulo Platão, as virtudes seriam arquétipos que o ser humano traz consigo ao nascer (contrariamente à idéia de pecado original colocada séculos depois na cultura ocidental), mas que, misteriosamente, ficariam aprisionadas no ser humano, esperando a liberação de seu mutismo. Haveria no Universo um impulso natural para a perfeição; os arquétipos estariam no mundo metafísico revestidos de profunda realidade e permanência. Os seres seriam transitórios, os arquétipos permanentes. O homem existira antes de sua existência temporal como arquétipo.

Aristóteles, herdeiro do pensamento de ambos, afirmara que a Natureza é um processo de autorrealização e autoaperfeiçoamento. O homem tem de transformar-se em Homem (humanismo). O que distinguiria o homem do animal seria a razão. O sentido da existência, o conhecimento. “Tudo da Natureza traz algo de divino em si.” A divindade é imanente à Natureza e não exterior a ela.

“Não se deve escutar a advertência daqueles que dizem que o homem deve pensar apenas no humano, o mortal apenas no mortal: antes, devemos empenhar-nos, tanto quanto o possível, em ser imortais.”

Interessante observar como os três pensadores se confundem num só,complementam-se. Sabe-se que Sócrates nada deixou escrito; todas as referências provêm de Platão, seu discípulo. E essas idéias atravessaram séculos de obscurantismo espiritual. E as palavras atribuídas a ele ao término de sua defesa viajaram no tempo como um misterioso sinal a ser decifrado: “É chegada a hora de partir: a mim, para morrer; a vós, para viver. Quem de nós enfrentará o melhor destino é desconhecido de todos, exceto de Deus.”

Existe um paralelismo entre o pensamento de Spinoza e o de Sócrates que diziam que o homem não era o compacto, o tocável, senão o invisível, o da essência. Afirmavam que ele tinha em seu interior tudo para se desenvolver; que deveria primeiro conhecer-se, e depois o que o cercava; que o princípio da sabedoria consistiria no reconhecimento da própria ignorância. Ambos foram condenados pelo poder político, por opor-se às idéias dos governantes e não cultuar suas personalidades, e nem as divindades do Estado.

Apesar de ter a oportunidade de fugir, o filósofo grego não o fez. "Sócrates é imortal. Podem matar o invólucro de Sócrates, mas Sócrates é imortal." E, segundo Platão, enfrentou a morte com serenidade. Talvez por ter compreendido que a morte verdadeira fosse o não pensar, a submissão aos pensamentos pensados por outras pessoas e à cruel ditadura dos mercadores da verdade.

Embora estes filósofos, como tantos outros que os sucederam, tivessem intuído um caminho e um conhecimento que transcendesse o dia-a-dia rotineiro de uma vida materializada e vazia, não conseguiram vislumbrá-lo com clareza nem trilhá-lo, para que pudessem depois ensinar às gerações que lhes sucederiam. Deixaram marcos, avisos, alertas que não foram tomados em conta, e a humanidade mergulhou nos fanatismos de toda a espécie, sejam políticos ou religiosos, sempre muito próximos, e que têm distanciado a humanidade da verdade, que a tem separado em ideologias, raças, religiões, partidos políticos.

O que significa afinal preocupar-se com a alma? Como se tornar uma pessoa boa sem ser ingênua? O que é a verdade e a justiça? Como aperfeiçoar-se e transformar-se em Homem atingindo a imortalidade?

Cada ser humano haverá de buscar as respostas por si mesmo, pois as que foram entregues prontas não são mais que o pão amanhecido e duro da tergiversação;respostas prontas imobilizam a inteligência e são formas padronizadas que impedem o movimento e a evolução.

Ao invés de procurar o elo perdido nos primatas, o homem do futuro haverá de buscá-lo em si mesmo, no seu coração e na sua consciência, na prerrogativa evolutiva que lhe foi dada neste sentido pelo Deus único que os céticos chamam de acaso, e cuja face visível é o Universo, e a invisível as suas leis que podem ir sendo conhecidas pelo homem em evolução.


Nagib Anderáos Neto
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www.twitter.com/soaredna

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Friday, July 24, 2009

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos dias de verão à beira-mar, é-nos possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a nossa vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes em nossas vidas, desde o dia que abrimos nossos olhos para este mundo; mas é certo, também, que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e de nossa conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui em suficiente credencial para que se possa garantir que não seja um desastre; mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, que lhe dá esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e que se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor se confunde com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão, e principalmente, pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e dos anos que resumem uma vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque o criador vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível, então, criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na terra tem que ser grato a nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador argentino González Pecotche, Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das próprias obras, da própria realização.
Para o pensador , a consciência individual do ser humano pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da própria vida se tornará possível expandindo a vida nas próprias obras, nas próprias criações e, muito especialmente, nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas inconfundíveis daquele que por aqui passou e foi útil a si mesmo e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente que podemos chamar de eternidade.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto
www.ngibanderaos.com.br

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Tuesday, October 31, 2006

A Observação Consciente

É difícil julgar as outras pessoas sem antes haver aprendido a exercer o juízo sobre si mesmo.Julga-se, em geral, em função de apreciações alheias, pelo o que se ouviu dizer, e não pelo que realmente se observou. A observação consciente – conforme nos esclarece o pensador González Pecotche em inúmeros escritos e conferências – deveria servir, antes de tudo, para corrigir as nossas imperfeições; o que vemos de desagradável na conduta de uma outra pessoa deveria levar-nos a verificar se não existe em nós aquela característica negativa que compõe a nossa personalidade.Mas o ser humano não sabe olhar para si; olha o mundo como se não fizesse parte dele; vê, mas não enxerga; não entende que todo aquele cenário está aí para transformá-lo em diretor e ator do espetáculo de sua vida. Ao invés disto, gasta seu tempo olhando, admirando ou criticando o espetáculo de outras vidas, outros mundos, esquecendo-se de si, e que dentro dele existe um pequeno universo no qual poderia viver e ser feliz.

Essa falha gritante das culturas que nos precederam –com raras e honrosas exceções – engendrou nas mentes humanas a tendência ao escapismo,a viver somente fora de sua realidade interior. O ser humano está sempre a fugir de si: no trabalho, nas diversões, no estudo, nas leituras, nas platéias; não consegue conectar o que acontece à sua volta com a realidade interior. Olhar a Natureza e tomar para si o exemplo de paciência, movimento, renovação, evolução, e exercitá-lo no diário existir através de sua capacidade de pensar, criar e se modificar.

Vamo-nos transformando em atores que decoram e interpretam falas escritas por pessoas que nos antecederam, que desconhecemos, e que foram atores como nós, repetindo frases e cenas que compõem as tradições que – como disse certa vez González Pecotche – são o cemitério das idéias.

Romper com essa inércia cultural é o grande desafio da nova humanidade no despontar do terceiro milênio. Ao voltar-se para si e educar-se, o homem do futuro transformará o horroroso espetáculo de guerras, corrupção e violência no qual nos encontramos num cenário mais condizente com a espécie inteligente que um dia poderemos chegar a ser.

Ao dizer que tudo o que sabia era que nada sabia, Sócrates, a personagem de Platão, dá-nos a pauta de uma conduta inicial, caso queiramos aprender e evoluir. Será necessário arrancar a máscara da personalidade que nos leva a aparentar ser o que não somos, mas que imaginamos.Se ela não estiver aderida à epiderme psicológica, poderemos iniciar o caminho para construir a nossa individualidade.

Nagib Anderaós Neto

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