Monday, May 06, 2013

O Desenvolvimento da Mente


É muito comum confundir-se a mente como o cérebro. Há animais que têm o cérebro muito parecido com o do homem, mas não têm a mente, capacidade superior de criar, entender, aperfeiçoar-se e evoluir.


Há seres humanos que são piores que os animais, alguém diria. É verdade. Mas as mentes desses seres atrasados estão ali, passíveis de serem conhecidas, utilizadas, aperfeiçoadas.

Platão escreveu há séculos que a alma humana tem uma parte inferior e outra superior, caso contrário não existiria a possibilidade do autocontrole ser realizado através da ingerência da última sobre a primeira. O que Platão não disse é que a parte superior da alma, ou da mente, é uma potencialidade, existe e não existe, pode e precisa ser desenvolvida a partir da inferior, que também é pouco usada e conhecida.

Quando Sócrates celebrizou a inscrição milenar do templo de Delfos que exortava ao conhecimento de si mesmo, quis significar que aquele conhecimento era o da mente.

Mas, afinal, o que ela é?

É física? É metafísica?

O escritor e pensador González Pecotche pondera que ela é um órgão psicológico que reside no cérebro, manifesta-se através do aparato físico, e que é possível desenvolvê-la conscientemente, a partir da vontade, e não somente por exigências materiais e intelectuais no processo da vida que se inicia na infância e culmina na maturidade.

Há pessoas com idade avançada e mentes brilhantes, lúcidas, capazes, ativas. A mente se desenvolve na atividade que pode ser superior, relacionada com o aperfeiçoamento, despertando zonas inertes da mentalidade.

Uma outra explicação analógica diz que ela é o espaço onde os pensamentos nascem e se desenvolvem. Isto significa que cuidar dela implica cuidar dos pensamentos que ali se movimentam, muitas vezes provenientes de outras exóticas cujos cérebros de há muito se decompuseram sob as ancestrais lajes das tradições, verdadeiros cemitérios das idéias, como muito bem observou o pensador.

A mente humana é um fragmento da divina. Conhecê-la e aperfeiçoá-la é a tarefa do momento nesta nova era que se inicia.


Nagib Anderáos Neto
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Thursday, March 29, 2012

Espinosa

Visto por muitos de seus conterrâneos como inimigo da Igreja e do Estado, Espinosa foi combatido e ofendido em não poucas obras de sua época por ilustres pensadores como Voltaire e Leibniz, embora tivesse admiradores não menos importantes como Goethe e Herder. Transitou entre o maldito e o bendito (Baruck) que carregava no nome.
Ele nasceu em 1632 em Amsterdã numa família judia vinda de Portugal por causa da Inquisição. A comunidade judaica não o aceitava por criticar as contradições do Antigo Testamento. Foi perseguido, expulso e amaldiçoado pela sinagoga. Para sobreviver, fabricava cristais de lentes. Lutou por defender a liberdade de pensamento, pois a falta dela criaria a corrupção, a falsidade e a hipocrisia.
Morreu solitário aos 44 anos sem que o mundo conhecesse suas obras mais importantes. A solidão, o anonimato e a coleção de inimigos foram suas marcas na curta trajetória neste pequeno planeta.
Como bem disse Novalis, “Espinosa é um homem ébrio de Deus”. Diferentemente de Descartes, para ele a filosofia começava com Deus, enquanto que para o francês, a certeza de Deus vinha da certeza de si mesmo.
“Não podemos estar mais seguros da existência de nenhuma coisa que a do ser absolutamente infinito e perfeito, ou seja, Deus. Como sua natureza exclui toda imperfeição, elimina, desse modo, todos os motivos para duvidar de sua existência e proporciona a maior certeza sobre ele”, escreveu.
É um Deus diverso do ortodoxismo judeu e cristão, pois para Espinosa o homem é um pensamento de Deus que é tudo e está em tudo.
Se Deus está em tudo e não pode ser revelado por nenhum profeta ou mensageiro, fica então entendido porque o filósofo foi considerado um inimigo pelas religiões constituídas.
Para ele, Deus é razão (logos), como também coração, amor; a fusão da suprema razão com o supremo amor. Difundiu ser importante que a Verdade fosse experimentada, e não somente estudada, pois ai surgiria a compreensão do amor. Em sua ética encontramos a questão da liberdade e do livre arbítrio como algo a ser conquistado; quanto maior liberdade, maior responsabilidade, que muito teria a ver com o grau de consciência.
Existe um paralelismo entre o pensamento de Spinoza e o de Sócrates que dizia que o homem não era o compacto, o tocável, senão o invisível, o da essência. Afirmava que todo o ser humano tinha em seu interior tudo para se desenvolver; que deveria primeiro conhecer-se, e depois o que o cercava; que o princípio da sabedoria consistiria no reconhecimento da própria ignorância.Ambos foram condenados pelo poder político, por opor-se às idéias dos governantes e não cultuar suas personalidades, e nem as divindades do Estado.
Apesar de ter a oportunidade de fugir, o filósofo grego não o fez. "Sócrates é imortal. Podem matar o invólucro de Sócrates, mas Sócrates é imortal." E, segundo Platão, enfrentou a morte com serenidade. Talvez por ter compreendido que a morte verdadeira fosse o não pensar, a submissão aos pensamentos pensados por outras pessoas e à cruel ditadura dos mercadores da verdade.
Para Spinoza, a verdadeira salvação consistiria no conhecimento que é oposto ao fenomênico e sobrenatural que forjam as bases do ateísmo. Afirmava que as religiões sobreviveram através de dogmas rígidos.
Olhar as coisas sob a perspectiva da eternidade era uma das principais bases de seu pensamento. Deus é tudo, e tudo é Deus. Pensar em si mesmo é pensar em Deus, e não uma forma de egoísmo. A substância essencial que tudo interpenetra é Deus que tudo rege e se confunde com suas leis que podem ser conhecidas.
De qualquer forma, apesar do avanço conceitual e do distanciamento dos preconceitos vigentes, Espinosa não foi capaz de vislumbrar a forma de se realizar o contato consciente com estas realidades, e nem como empreender um processo de aperfeiçoamento individual.Mais intuitivo que objetivo, racional, deixou um legado importante para o pensamento das gerações que o sucederam.

Nagib Anderáos Neto
www.twitter.com/anderaosnagib

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Thursday, March 10, 2011

Agnosticismo Versus Conhecimento

Tudo o que sei é que nada sei, teria dito Sócrates, a personagem de Platão. Eu menos, pois nem sei se nada sei, escreveu Fernando Pessoa no poema Agnosticismo Superior.
O agnosticismo só admite conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada. Ele trata as questões metafísicas como discussões inúteis, por serem, em sua visão, realidades incognoscíveis.
Quem formulou o tema por primeira vez foi o biólogo inglês Huxley no século XIX. Em sua origem, a palavra significa aquilo que é oposto ao conhecimento. O sentido empregue pelo cientista parece ter sido de que Deus jamais poderia ser conhecido.
Os homens criaram um deus a sua imagem e semelhança, uma personagem na qual se poderia acreditar ou não. Nesse sentido, o agnóstico seria a pessoa que não aceita ou não acredita naquela invenção, pois o deus criado pelos homens expulsou-os do paraíso por terem eles provado o fruto proibido do conhecimento, quando uma inteligência esclarecida haveria de supor que somente através dele, o conhecimento, se poderia aproximar-se Dele.
Paradoxalmente, os agnósticos não acreditam também na não existência de Deus, pois da mesma forma, para eles, que a existência de Deus não pode ser provada pela razão, sua inexistência também não o pode.
São lucubrações realmente confusas. Se Deus se confunde com a própria criação, como um homem se confunde com sua vida, seus filhos, seus amigos, suas obras, Ele pode, sim, ser conhecido.
O conhecimento do Universo físico, tal como a ciência tem empreendido, é uma forma de se chegar a Ele. O conhecimento da figura humana em sua conformação psicológica e espiritual, alem da biológica, é também uma complementação daquele. Pensamentos, sentimentos e emoções não são físicos, manifestam-se através do corpo, mas são metafísicos e cognoscíveis. Se atentarmos bem, a realidade do mundo metafísico é tão ou mais eloqüente que a do físico, por ser aquele o mundo das idéias, dos ideais, dos projetos, dos sentimentos, dos pensamentos e sonhos. Ao sonhar, podemos vivenciá-lo como quando experimentamos uma maçã. Todo artista toca neste mundo ao criar a sua obra e experimenta uma sensação sublime e indizível ao fazê-lo. Qualquer ser humano ao sonhar adentra a este mundo ao tornar-se ator e espectador naquela viagem.
Para os evolucionistas, o homem e o macaco teriam uma ascendência comum. Eles descartam a existência de Deus e concebem todo o Universo como obra do acaso. Os criacionistas cristãos acreditam que Deus criou o mundo como ele é; e assim também o homem. Os criacionistas evolucionistas julgam que Deus criou e foi o início de um Universo em permanente movimento, evolução e transformação, e que está presente em sua Obra.
Não podemos deixar de considerar que a biologia evolutiva é uma realidade e que há muito o que descobrir e aprender sobre o processo evolutivo. A realidade da evolução é incontestável; e o homem pode experimentá-la dentro de si conscientemente, e não apenas constatá-la materialmente. A evolução não se dá apenas por seleção natural. No homem ela pode ser realizada por seleção mental de pensamentos e idéias que tendam à evolução. Por tal fato, não é uma ilusão ponderarmos que somos súditos privilegiados nesta parte do Universo conhecida por termos mente e sensibilidade; capacidade de criar.
A crise que se vive, mais do que ambiental e cultural é uma crise espiritual que tem afastado o ser humano de seus irmãos pelos fanatismos, pela idolatria e a ignorância. Tudo evolui. O homem precisa evoluir, mental e espiritualmente falando, para deixar de ser cético e crente no que desconhece. Só o conhecimento libera; e a ele não se chega senão através de processos que tendam à evolução.
Não somos um tipo de macaco que reluta admiti-lo. Somos seres humanos que evoluem biologicamente e que podem chegar a fazê-lo espiritualmente se decidirem tomar as rédeas do destino e transformar-se psicológica e espiritualmente; à matemática biológica se deverá agregar a psicológica e espiritual que permitirão a complementação da evolução material. O Universo e o homem não são relativos.
O ponto de conciliação entre criacionistas e evolucionistas parece ser aquele que aponta o Universo como a face visível de Deus, e suas Leis, a invisível.
O homem nasceu para ser livre. Sua tristeza é ver-se acorrentado à escravidão mental imposta por preconceitos que sobrevivem em sua mente incompreensivelmente. Cada qual pode ser seu próprio Deus experimentando aquela liberdade e a consciência de existir. Os grilhões mentais são mais cruéis que os que sangravam os corpos de nossos antepassados que aqui foram a nossa vergonha e também a de Darwin.

Nagib Anderaos Neto
WWW.nagibanderaos.com.br

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Friday, November 12, 2010

Deus e a Consciência

Melhor que dar o peixe ou ensinar a pescar é ensinar a pensar. Mas antes de fazê-lo, será necessário aprendê-lo. Pensar é um ato de liberdade, um aprendizado espiritual que exige saber julgar-se, querer melhorar, sentir a necessidade de evoluir, realizar. E pensar no quê? Em Deus, em si mesmo e nos semelhantes, ensina González Pecotche, o pensador que dedicou sua vida ao culto da nobre função que as crenças e os preconceitos impedem realizar.
Deus se confunde com o homem, com todos os homens, sem nenhum privilégio ou intermediário. Está presente no templo interior que existe no coração de todos e que se chama consciência, a que deveria reger todos os atos humanos, o Deus interior, a bela adormecida que ali jaz prostrada sob as sombras do ceticismo, da ignorância, das crenças e dos preconceitos.
O homem nasceu para pensar e não apenas para trabalhar, se divertir e se conformar com a entristecida vida rotineira dos que imaginam que a felicidade se resume na posse de coisas que perdem o seu valor quando conquistadas.
O principio do processo de liberação espiritual pelo pensar resume-se no reconhecimento das próprias limitações e na identificação dos preconceitos e crenças que aprisionam a inteligência nas masmorras da ignorância. E a maior ignorância é ignorar-se, não se ver, desconhecer-se. Mesmo o mais letrado, o mais culto, pode ser um ausente de si, de sua consciência.
Mais do que o axiomático ”conhece-te a ti mesmo” do ilustre personagem mencionado por Platão em seus diálogos, sobressai-se o “tudo o que sei é que nada sei”, principio de todo o processo de liberação pelo pensar.
Se não me conheço, desconheço minha capacidade de criar. Se não sou um pequeno criador, não posso sentir e compreender o grande Criador.
Todo o ser humano pode ser um criador, mesmo não sendo artista, e compreender melhor o Grande Criador, o Deus único, tão distante do materializado homem moderno. E a maior obra de arte que um ser humano poderia realizar seria a de criar a sua pessoa tornando-se um indivíduo melhor, em constante aperfeiçoamento; essa sim seria a obra-prima, a maior obra de arte, a única que poderia merecer tal classificação.
Deus não está nas alturas, nos livros, nos templos ou nas desgraças; nem nas pestes ou doenças incuráveis. Ele não traz o tom pesado e vingativo; não pune, não castiga, não deprime; ensina, reconforta e traz esperança. Está num sorriso infantil, na emoção de uma descoberta, num instante de reflexão, na generosidade de quem ensina. Maior que tudo quanto existe, que o mesmo Universo, tem em cada coração um pequeno templo despojado do ouropel e da pompa, do ar pesado da intolerância e da incompreensão. Para penetrar em seu interior, muitas vezes inacessível à pretensão e à ignorância, é exigido que se desvencilhe da pesada carga de preconceitos, da incompreensão e dos defeitos que vêm dominando a mente humana, impedindo-lhe de contemplar a Verdade pela névoa da ignorância que tem cegado o seu entendimento.
Um homem afastado de si e dos semelhantes é desatento, distraído de Deus, inconsciente.

Nagib Anderáos Neto.

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Monday, September 06, 2010

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos momentos à beira-mar, é possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes nela, desde o dia que abrimos os olhos para este mundo, mas também que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui suficiente credencial para que se possa garantir que o casamento não seja um desastre, mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor, com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão que pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e anos que se resumem numa vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque ele vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na Terra tem que ser grato ao nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador González Pecotche.
Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das obras pessoais, da realização individual.
Para o pensador , a consciência individual do homem pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da vida se tornará possível expandindo-a nas obras, nas criações e nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas daquele que por aqui passou, foi útil a si e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto

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Thursday, October 01, 2009

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos dias de verão à beira-mar, é-nos possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a nossa vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes em nossas vidas, desde o dia que abrimos nossos olhos para este mundo; mas é certo, também, que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e de nossa conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui em suficiente credencial para que se possa garantir que não seja um desastre; mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, que lhe dá esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e que se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor se confunde com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão, e principalmente, pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e dos anos que resumem uma vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque o criador vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível, então, criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na terra tem que ser grato a nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador argentino González Pecotche, Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das próprias obras, da própria realização.
Para o pensador , a consciência individual do ser humano pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da própria vida se tornará possível expandindo a vida nas próprias obras, nas próprias criações e, muito especialmente, nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas inconfundíveis daquele que por aqui passou e foi útil a si mesmo e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente que podemos chamar de eternidade.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto
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Friday, September 18, 2009

Sócrates e a Busca da Sabedoria

Sócrates era visto como um corruptor perigoso da juventude. A todos exortava a que não se preocupassem tanto com as coisas materiais, senão com a alma; que se tornassem pessoas boas. Um sábio que dizia nada saber e que poderia ter sido um ponto de inflexão cultural e dos costumes, mas não o foi. Tomou da cicuta cumprindo o destino que lhe fora imposto pelos juízes e políticos para os quais um povo que pensasse não seria conveniente. Quando o filósofo disse ser imortal, quis, talvez, significar que seus pensamentos e idéias sobreviveriam à morte e seguiriam pelos séculos como fachos luminosos para as inteligências que se decidissem por pensar.

Para o filósofo grego, nada mais interessava que a Verdade e a Justiça; por tal postura foi condenado pelo Estado decadente.

Para seu discípulo Platão, as virtudes seriam arquétipos que o ser humano traz consigo ao nascer (contrariamente à idéia de pecado original colocada séculos depois na cultura ocidental), mas que, misteriosamente, ficariam aprisionadas no ser humano, esperando a liberação de seu mutismo. Haveria no Universo um impulso natural para a perfeição; os arquétipos estariam no mundo metafísico revestidos de profunda realidade e permanência. Os seres seriam transitórios, os arquétipos permanentes. O homem existira antes de sua existência temporal como arquétipo.

Aristóteles, herdeiro do pensamento de ambos, afirmara que a Natureza é um processo de autorrealização e autoaperfeiçoamento. O homem tem de transformar-se em Homem (humanismo). O que distinguiria o homem do animal seria a razão. O sentido da existência, o conhecimento. “Tudo da Natureza traz algo de divino em si.” A divindade é imanente à Natureza e não exterior a ela.

“Não se deve escutar a advertência daqueles que dizem que o homem deve pensar apenas no humano, o mortal apenas no mortal: antes, devemos empenhar-nos, tanto quanto o possível, em ser imortais.”

Interessante observar como os três pensadores se confundem num só,complementam-se. Sabe-se que Sócrates nada deixou escrito; todas as referências provêm de Platão, seu discípulo. E essas idéias atravessaram séculos de obscurantismo espiritual. E as palavras atribuídas a ele ao término de sua defesa viajaram no tempo como um misterioso sinal a ser decifrado: “É chegada a hora de partir: a mim, para morrer; a vós, para viver. Quem de nós enfrentará o melhor destino é desconhecido de todos, exceto de Deus.”

Existe um paralelismo entre o pensamento de Spinoza e o de Sócrates que diziam que o homem não era o compacto, o tocável, senão o invisível, o da essência. Afirmavam que ele tinha em seu interior tudo para se desenvolver; que deveria primeiro conhecer-se, e depois o que o cercava; que o princípio da sabedoria consistiria no reconhecimento da própria ignorância. Ambos foram condenados pelo poder político, por opor-se às idéias dos governantes e não cultuar suas personalidades, e nem as divindades do Estado.

Apesar de ter a oportunidade de fugir, o filósofo grego não o fez. "Sócrates é imortal. Podem matar o invólucro de Sócrates, mas Sócrates é imortal." E, segundo Platão, enfrentou a morte com serenidade. Talvez por ter compreendido que a morte verdadeira fosse o não pensar, a submissão aos pensamentos pensados por outras pessoas e à cruel ditadura dos mercadores da verdade.

Embora estes filósofos, como tantos outros que os sucederam, tivessem intuído um caminho e um conhecimento que transcendesse o dia-a-dia rotineiro de uma vida materializada e vazia, não conseguiram vislumbrá-lo com clareza nem trilhá-lo, para que pudessem depois ensinar às gerações que lhes sucederiam. Deixaram marcos, avisos, alertas que não foram tomados em conta, e a humanidade mergulhou nos fanatismos de toda a espécie, sejam políticos ou religiosos, sempre muito próximos, e que têm distanciado a humanidade da verdade, que a tem separado em ideologias, raças, religiões, partidos políticos.

O que significa afinal preocupar-se com a alma? Como se tornar uma pessoa boa sem ser ingênua? O que é a verdade e a justiça? Como aperfeiçoar-se e transformar-se em Homem atingindo a imortalidade?

Cada ser humano haverá de buscar as respostas por si mesmo, pois as que foram entregues prontas não são mais que o pão amanhecido e duro da tergiversação;respostas prontas imobilizam a inteligência e são formas padronizadas que impedem o movimento e a evolução.

Ao invés de procurar o elo perdido nos primatas, o homem do futuro haverá de buscá-lo em si mesmo, no seu coração e na sua consciência, na prerrogativa evolutiva que lhe foi dada neste sentido pelo Deus único que os céticos chamam de acaso, e cuja face visível é o Universo, e a invisível as suas leis que podem ir sendo conhecidas pelo homem em evolução.


Nagib Anderáos Neto
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Friday, July 24, 2009

Dias Chuvosos

Os dias chuvosos trazem sempre alguma compensação. Mesmo nos ociosos dias de verão à beira-mar, é-nos possível dedicar algumas horas à leitura e à meditação que haverão de significar um saldo útil para a nossa vida.
Em Um Casamento em Florença, Somerset Maughan conclui a obra com a frase pronunciada por Rowley: “Minha querida, é para isto que a vida foi feita: para nos arriscarmos”.
É certo que há riscos permanentes em nossas vidas, desde o dia que abrimos nossos olhos para este mundo; mas é certo, também, que podemos construí-la como o resultado de nossos pensamentos e de nossa conduta.
O romance de Somerset culmina com o casamento de Rowley e Mary. Ele a ama verdadeiramente e está disposto a correr um risco calculado, pois o passado de Mary não se constitui em suficiente credencial para que se possa garantir que não seja um desastre; mas, como escreveu Platão no Banquete, “se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais apreciam e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo amado. E a razão é esta: o que ama é, de certa maneira, mais divino que o objeto amado, pois possui em si a divindade; é possuído por um deus”.
Assim, Rowley arrisca-se por sentir em si a força da divindade que lhe dá confiança, que lhe dá esperança.
No mesmo Banquete, ainda falando sobre o amor e a imortalidade, Platão, através dos lábios de Sócrates, ali convertido numa personagem, diz que “a procriação e o nascimento são coisas imortais num ser mortal”.
A procriação é um sinal de imortalidade que é uma aspiração humana e que se confunde com a aquisição do Bem e da Verdade; o amor se confunde com a imortalidade. A natureza mortal é impelida à imortalidade. A procriação, no entanto, não se resume, apenas, na física, senão, e principalmente, pode e deve significar a procriação mental e sensível: criar pensamentos e sentimentos que possam perdurar no tempo, independente dos dias e dos anos que resumem uma vida e que podem transcender o limitado trecho contido entre o dia do nascimento e o do desenlace fatal.
Assim é como o criador ama o que criou ou o que procriou. Pode ser um filho, um pensamento, uma pequena obra, porque o criador vive ali e pressente que este é um sinal de eternidade.
É possível, então, criar pela fecundidade do corpo como pela do espírito que permite o surgimento de pensamentos, sentimentos e virtudes que podem beneficiar uma família, um Estado ou toda a humanidade.
O entendimento do que seja a eternidade e a possibilidade de experimentá-la no físico existir está intimamente ligado à experiência pessoal do criador, aprendiz feito à imagem e semelhança de um grande Criador que está constantemente a lhe segredar todas as possibilidades que estão abertas para os que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender.
“Tudo quanto façamos aqui na terra tem que ser grato a nosso espírito e encerrar um valor positivo para a nossa existência”, escreveu o pensador argentino González Pecotche, Há, nestas palavras, um vislumbre da eternidade através das próprias obras, da própria realização.
Para o pensador , a consciência individual do ser humano pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos e a criação mental. Ela pode, também, sucumbir debilitada pela inércia, desaparecendo do cenário humano para dar lugar a um outro movimento. A ampliação dos conhecimentos tem a ver com esta sede por eternidade, ou com a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e procuravam.
A ampliação da própria vida se tornará possível expandindo a vida nas próprias obras, nas próprias criações e, muito especialmente, nas pessoas com as quais se tem a possibilidade de conviver e deixar nelas as marcas inconfundíveis daquele que por aqui passou e foi útil a si mesmo e aos demais.Isso seria muito maior que a imortalidade através da arte mencionada por Platão. Essa sede por eternidade nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderão converter-se num grande e infinito presente que podemos chamar de eternidade.
Se num dia ensolarado podemos vislumbrar um amanhã melhorado, os dias chuvosos podem nos fazer recordar do sol e pressentir a eternidade.

Nagib Anderáos Neto
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