Tuesday, December 15, 2015

Borges e o Ofício do Verso



 
 
Relendo “Este oficio do Verso” de Jorge Luis Borges – coletânea de conferências pronunciadas em Harvard na década de sessenta, cujas gravações foram recentemente descobertas nos arquivos daquela Universidade –, deparamo-nos com verdadeiras aulas de profundo conteúdo literário e filosófico, confirmando a genialidade do argentino, cuja obra tem sido inesgotável fonte de estudo e pesquisa em todo o mundo.
Comecei a interessar-me pelo autor em 94 ao ler “O Cânone Ocidental” de Harold Bloom. Fui também ampliando meus contatos com as obras de Emerson, Emily Dickinson e Walt Whitman, irmãos literários do ilustre argentino, sempre avesso aos melodramas e romances espichados. Seus contos, poemas e ensaios são uma literatura sobre a literatura. Para ele, a poesia era uma paixão e um prazer. “O fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia”, escreveu certa vez. E as bibliotecas eram como mágicas cavernas cheias de mortos, os quais poderiam ser ressuscitados, quando as páginas daqueles livros fossem abertas; ele reafirmava o antigo bordão de que “a arte é longa e a vida é breve”. E essa arte não seria elitista ou refinada, mas do homem comum, da rua, democrática, cuja matéria prima é a palavra, “o dialeto da vida”.
Ao lê-lo descobrimos uma eternidade na beleza. E devemos encontrá-la nos livros; senão, para que ler? E a linguagem pode ser música e paixão, quer dizer, poesia. E “as palavras são símbolos para memórias partilhadas”.
Condenado a uma cegueira genética, foi capaz de produzir a parte ponderável de sua obra após adentrar a escuridão completa, criando, mentalmente, e reproduzindo pela palavra; desmistificando o preconceito de que a tecnologia e a visão física perfeita pudessem trazer uma felicidade completa.
Borges criou e sobreviveu, apesar da cegueira, como Cervantes, apesar da prisão.
O maior cego não é o que não quer ver, mas o que não quer entender.
A lição de Borges expressa em suas entrelinhas ser a autocriação a maior obra que se possa realizar; e o homem, um pequeno criador feito à imagem e semelhança de um Criador maior.
 
Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

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Tuesday, March 27, 2012

Deus e os Detalhes

Uma velha citação diz que Deus está nos detalhes. Uma outra, que a poesia é feita de detalhes e pode ser vida. E ainda, que o poeta, como os cegos, é capaz de enxergar na escuridão.

Esta última, como as demais, leva-nos a Borges, com seus espelhos e labirintos. E sem nenhum esforço, vêm-nos à mente alguns poucos e misteriosos versos do poeta argentino:

Às vezes nas tardes uma cara
Nos mira desde o fundo de um espelho;
A arte deve ser como este espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Conheci um outro menino que se assustava com os espelhos. Porque aquela cara que o mirava desde o fundo do espelho não era a cara dele. E se perguntava: “que cara é esta? Eu não sou esta cara!”.

A vida haveria de revelá-la.

Então é certo: a poesia é feita de detalhes e pode ser vida. E cada cara traz um enigma, um mistério, uma história, uma herança. Cada uma com uma fisionomia própria, nunca iguais, mesmo as dos gêmeos mais parecidos, como as impressões digitais, um mistério particular, não a cara, mas o que haveria por detrás dela, a fisionomia particular, a expressão metafísica, a verdadeira e desconhecida face.

Detalhe, espelho, Deus, cara. Cada palavra um símbolo-mágico, metáfora-viva. Homem, alma, espírito. Cada qual haverá de decifrá-la.
E sem nenhum esforço da memória, vem-nos à mente Emily Dickynson, novamente, a murmurar:

A palavra morre
Quando é dita,
alguém diz.
Eu digo que ela começa
A viver
Naquele dia.

As palavras não são metáforas-mortas, são vivas que podem e devem evoluir através dos tempos; principalmente as que representam certos conceitos de extrema importância para o ser humano: vida, mente, existência, Deus, felicidade, alma, espírito, inteligência, sensibilidade.

A palavra “pedra”, por exemplo, refere-se a algo físico que conhecemos e pode nos vir à mente no exato momento de ouvi-la.
Quando ouvimos Drummond dizer: “havia uma pedra no caminho”, a sutileza metafísica é gritante; já não é uma pedra física, é mental, um obstáculo a ser removido, um problema a ser resolvido.

A palavra Deus, dependendo de quem a ouça, reporta a uma imagem que vem do conceito que se tenha; pode ser um senhor com uma enorme barba e que vive no céu, ou o próprio Universo com tudo o que nele existe, ou um animal sagrado, o sorriso de uma criança, o gesto generoso de quem nos ajuda, ou uma inteligência maior de onde todas as demais provêm, ou absolutamente nada. A palavra refere-se ao conceito e pode, sim, ser uma metáfora-morta se não evolui com o tempo transformando-se num preconceito.

As palavras, expressões físicas dos pensamentos, são pequenos detalhes com os quais se poderá chegar a Deus ou mergulhar na escuridão.

Nagib Anderáos Neto

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Monday, September 20, 2010

Bruna, Borges e o Outro

Onze de Agosto de 2001.Biblioteca Nacional em Buenos Aires.A palestra por se iniciar. No saguão, enquanto uns fumavam e outros contemplavam a galeria com as fotos dos imortais, um jovem brasileiro cochicha no ouvido da namorada: “Quem é este tal de Borges?”

A palestra versaria sobre o centenário de nascimento de outro argentino ilustre, o pensador e humanista Carlos Bernardo González Pecotche.

Recordei-me da linda atriz brasileira que se transformara em escritora e que numa infeliz entrevista dissera que nunca ouvira falar de Fernando Pessoa que eu conhecera tardiamente, em setenta e dois, como o poeta argentino, em noventa e dois. Quanta perda de tempo! Tempo perdido não volta mais, ele flui como o rio de Heráclito e a areia que desce firme e decidida na ampulheta.

Por muito tempo achei que àquele jovem iletrado faltava muita coisa. Depois compreendi que todos fomos iletrados um dia - se ainda não o somos - , e muitos tiveram paciência conosco. Bondade, mais bondade é o que faz falta; palavras mágicas que ecoavam em meus ouvidos há muito tempo, e que eu deveria ter lido nuns escritos de González Pecotche. Se eu não tenho paciência com os outros, como poderiam tê-la comigo? A Natureza ensina paciência. O sol ensina paciência.

Recordei-me do Livro de Areia, do Outro, onde Borges maduro encontrava com o outro Borges, o jovem, em 1969, ao norte de Boston, em Cambridge, e os dois conversam sobre a eternidade, a juventude, a velhice, a morte e a arte. Falam da família, do pai morto e seus gracejos contra a fé, o defunto com uma mão de criança sobre a mão de um gigante, e um Jesus a falar como um gaúcho através de parábolas, para não se comprometer.

Borges deixou um exemplo grandioso: a criação não depende dos olhos sãos, do computador ou da parafernália eletrônica. Foi capaz de produzir a parte ponderável de sua obra depois de adentrar a escuridão, desmistificando a idéia de que a tecnologia e a visão física perfeita pudessem trazer uma felicidade completa. Borges criou e sobreviveu, apesar da cegueira, como Cervantes, apesar da prisão.

O maior cego não é o que não pode ver, mas o que não quer entender.

Falaram sobre livros e sobre Whitman – o incapaz de mentir -. Num de seus poemas, Walt Whitman descreve a desconcertante experiência ao assistir a uma palestra de um grande astrônomo que apresentava seus gráficos, números, mapas, diagramas, e se enfastia, se aborrece com aquelas explicações acadêmicas, saindo, então, do auditório, e, à rua, “no ar úmido e místico da noite” pode olhar, “em perfeito silêncio, para as estrelas”.

A expressiva lição da realidade da infinitude do Universo que nos cerca bem como do mundo mental que a tudo interpenetra e compõe deveria ser muito mais bela e instrutiva do que a mera racionalidade pudesse descrever. ”Não posso conceber nenhum ser mais maravilhoso que o homem”, dizia o poeta da meia – noite, do sono, da morte e das estrelas, que se autoconsiderava uma espécie de deus libertador americano.

A poesia de Whitman é saudatória, como a de Fernando Pessoa, quando o poeta português saúda-nos, deseja-nos sol e nos dá a sua poesia. Ao despedir-se dos seus versos, do alto de sua janela, após concluir que passa e fica, como o Universo, deseja para si mesmo – e para sempre – um cenário como aquele: um dia cheio de sol.
No poema Eros e Psique, ele relata a aventura do Príncipe fadado a procurar pela Princesa dormida e descobre, ao final da aventura, que ele mesmo era a Princesa que dormia.

Para González Pecotche, existe no interior de cada indivíduo um ser encantado, adormecido, encoberto e escondido que quer se manifestar. O encontro de Borges consigo próprio num tempo qualquer do passado poderia estar representando a culminação de uma procura incansável que muitos jamais chegam a concluir.

Depois de alguma conversa, Borges e o outro sobrenaturalmente se despediram e nunca mais se viram, nunca souberam ao certo se aquele encontro e aquela conversa foram reais, da mesma forma que eu não sei se aquele jovem brasileiro era uma personagem ou alguém que realmente existiu.

Nagib Anderaos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Wednesday, February 10, 2010

Borges e o Ofício do Verso

Relendo “Este oficio do Verso” de Jorge Luis Borges – coletânea de conferências pronunciadas em Harvard na década de sessenta, cujas gravações foram recentemente descobertas nos arquivos daquela Universidade – deparamo-nos com verdadeiras aulas de profundo conteúdo literário e filosófico que vêm confirmar a genialidade do argentino cuja obra tem sido inesgotável fonte de estudo e pesquisa em todo o mundo.
Comecei a interessar-me pelo autor em 94 ao ler “O Cânone Ocidental” de Harold Bloom. Em função daquela leitura, fui também ampliando meus contatos com as obras de Emerson, Emily Dickinson e Walt Whitman, irmãos literários do ilustre argentino que sempre foi avesso aos melodramas e romances espichados. Seus contos, poemas e ensaios são uma literatura sobre a literatura. Para ele, a poesia era uma paixão e um prazer. “O fato central de minha vida foi a existência das palavras e a possibilidade de tecê-las em poesia”, escreveu certa vez. E as bibliotecas eram como mágicas cavernas cheias de mortos que poderiam ser ressuscitados quando as páginas daqueles livros fossem abertas; ele reafirmava o antigo bordão de que “a arte é longa e a vida é breve”. E essa arte não seria elitista ou refinada, mas do homem comum, da rua, democrática, cuja matéria prima é a palavra, “o dialeto da vida”.
Ao lê-lo descobrimos que “há uma eternidade na beleza”. E que devemos encontrá-la nos livros; senão, para que ler? E que a linguagem pode ser música e paixão, quer dizer, poesia. E que “as palavras são símbolos para memórias partilhadas”.
Condenado a uma cegueira genética, foi capaz de produzir a parte ponderável de sua obra após adentrar a escuridão completa, criando, mentalmente, e reproduzindo pela palavra; desmistificando o preconceito de que a tecnologia e a visão física perfeita pudessem trazer uma felicidade completa.
Borges criou e sobreviveu, apesar da cegueira, como Cervantes, apesar da prisão.
O maior cego não é o que não quer ver, mas o que não quer entender.
A lição de Borges expressa em suas entrelinhas que nada que o ser humano possa criar seja maior do que ele próprio: um pequeno criador feito à imagem e semelhança de um Criador maior.

Nagib Anderaos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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Monday, January 11, 2010

Correspondências

Correspondências


Comprei AS Flores do Mal em oitenta e sete. Era uma tradução de Jamil Almansur Haddad. Li e reli a obra do poeta francês, mas Baudelaire continuou distante do que eu pudesse sentir ou compreender. Os tradutores são, de certa forma, traidores. É muito difícil ser fiel ao texto, principalmente no caso da poesia. Mesmo assim, houve ali dois poemas que me chamaram a atenção: Correspondências e O Albatroz.
Muitos anos depois, ao ler a biografia do poeta, seguindo o conselho de Beto Portinari, compreendi melhor aqueles dois poemas e toda a obra do angustiado escritor. O amigo dissera-me que a leitura da vida do artista poderia me ajudar a compreender a sua obra.
Como em meu tempo de menino o francês era matéria obrigatória na escola, arrisquei a minha própria traição:
“A Natureza é um templo onde os pilares viventes
Deixam, às vezes, escapar palavras confusas.”
Estes primeiros versos transportaram-me à infância e fizeram-me experimentar novamente o sentimento panteísta, pois vozes misteriosas respondem-se na Natureza anunciando uma correspondência entre o que é visível e invisível, entre matéria e espírito, pois ela é um vasto templo, único e verdadeiro, cujos pilares deixam à mostra hieróglifos misteriosos e familiares que o passante distraído não os percebe, mas que os decifradores podem captar.


“O homem atravessa-a através de uma floresta de símbolos que observam-no com olhares familiares.”
O mundo visível como uma outra face do invisível. E por que não mais real? O véu que cobre a Natureza desvela uma realidade maior, embora invisível aos olhos físicos.
“Como ecos prolongados que na distância se confundem numa tenebrosa e profunda unidade, vasta como a noite e a claridade, perfumes, cores e sons se respondem”.
“Há perfumes frescos como a carne das crianças, doces como o som do oboé, verdes como as pradarias, e outros corrompidos, ricos e triunfantes, tendo a expansão de coisas infinitas, como o âmbar, o almíscar e o incenso que cantam os transportes do espírito e dos sentido.”
Toda esta simbologia de Baudelaire, onde o físico e o metafísico confundem-se numa inspiração que nem o próprio poeta sabe de onde vem, reporta-nos aos símbolos e às metáforas de Borges e Fernando Pessoa:
“Símbolos? Estou farto de símbolos”,
diz-nos o amargurado engenheiro Álvaro de Campos.
“Mas dizem que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.”
E alguns dias antes, o engenheiro-poeta resume versejando, lá pelos idos de 33:
“Símbolos. Tudo símbolos.
Se calhar tudo é símbolos.
Será tu um símbolo também? “
Neste Universo de símbolos, tudo são metáforas. Alguém já expressou que toda a palavra é uma metáfora morta.


Seria o ser humano uma metáfora viva, expressão ou símbolo de uma realidade maior?
A palavra metáfora provém do grego e fundamenta-se numa relação de semelhança entre o sentido próprio de uma palavra e o figurado.
No clássico exemplo de se chamar de raposa uma pessoa astuta ou a juventude como a primavera da vida, o esperto animal empresta vivacidade aos humanos e a Natureza a sua beleza à juventude.

Há eloqüentes metáforas cheias de otimismo e de vida e as negras e entristecidas. A luz do conhecimento que poderia iluminar os escuros âmbitos do entendimento sugere vida, aprendizado e uma outra metáfora: o caminho do aperfeiçoamento que poderia ser percorrido pela inteligência de quem decidisse abandonar as velhas metáforas da passividade, do conformismo e do pessimismo.

A vida, como um vale de sofrimentos e de lágrimas, metáfora menor e entristecida que nos reporta ao aforismo pessimista que diz que ela é amarga ou que errar é humano, faz-nos refletir que a vida deve ser doce e que acertar é humano.
Se as nossas vidas são metáforas, expressões e símbolos de uma realidade maior, façamos com que elas se preencham com o conteúdo da natureza cheia de luz, movimento e transformação, e se correspondam com a Natureza.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

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Tuesday, July 14, 2009

A Muralha da Muralha da China

Não bastasse a extensa e duvidosa muralha física que cerca o continental império chinês, agora ela se estende aos âmbitos eletrônicos com severas restrições de acesso à informação pela internet para que o mundo não saiba das atrocidades que lá se comete e o escravizado povo não receba os ares da pouca liberdade que existe no mundo ocidental dito livre.

Em “Outras Inquisições” Borges menciona o imperador Shih Huang Ti que ordenou que se construísse a infinita muralha para defender-se da invasão de bárbaros, e que todos os livros existentes antes dele fossem queimados, possivelmente para defender-se dos pensamentos e idéias que pudessem despertar seus súditos do sono da escravidão. Renunciar ao passado e isolar o império do mundo foram medidas que influenciaram o destino daquele povo. Ele não chegou a compreender, como tantos outros déspotas construtores de muralhas, que as soluções dos problemas humanos dependem do entendimento e da união entre os homens.

No decorrer dos séculos, as coisas não mudaram muito naquele longínquo império.

Não se pode apagar a Verdade contida nos livros, pois ela está estampada na Natureza e inscrita nas consciências. E piores são as muralhas mentais que separam a alma humana de sua consciência, tornando os homens violentos, irascíveis, desumanos e desunidos.

Os imperadores, os reis e os ditadores sempre estabeleceram uma sutil ligação entre teologia, tirania e despotismo. Os deuses inventados pelos homens sempre foram invocados para justificar atrocidades inomináveis, a escravidão e o terror. E não há maior terrorismo que a abominável submissão imposta pelo temor e pela mentira. Os escravizadores são os impostores de uma teocracia absurda que muitos chamam de política, que deveria ser a arte de gerir o bem comum, mas passou a ser a arte de chegar ao poder e permanecer nele indefinidamente, como muito bem sabem fazer os políticos e dirigentes que se eternizam em seus cargos nos dias de hoje.

O esférico Deus de Hermes Trimegistus, “uma esfera inteligível cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma”, não quereria súditos escravizados, temerosos e ignorantes, porque vivendo em seus corações, não poderia ser contrário ou inimigo de Si mesmo, que tudo contém e com o que se confunde.

Ao invés de construir muralhas, o ser humano do futuro construirá pontes mentais de entendimento, caminhos que unam os homens e que integrem os fragmentos perdidos para que possam sentir e compreender o Deus invisível que está eloqüentemente presente nos grandes sentimentos, como na amizade, verdadeira ponte invisível que permitirá que a humanidade sobreviva.

O amigo que se ausenta deve ser recordado sempre para que não morra pela segunda vez; a sua sobrevivência dependerá desta recordação que será um tributo àquele espírito que continuará vivendo. E serão os nossos amigos que estarão presentes nas celebrações da vida e da morte. A amizade não pode ser uma ligação passageira e interesseira, senão a confortante experiência de estar acompanhado. E não se pode ser amigo de alguém se não se é de si mesmo. O sopro divino que habita o coração dos que são amigos desconhece as grosseiras muralhas dos defeitos pessoais. A amizade, em seu profundo significado, implica o amor que é a síntese e a essência do Deus único. Um amigo é como um espelho que pode nos ajudar no caminho evolutivo. Nesta mágica relação poderemos aprender muito.

Diante de uma ausência que parece ser irreparável, deveremos pensar que a vida celebra a vida, e que a alegria e a amizade sustentam o ser humano nos anos de sua vida terrestre. E que essa ausência não é mais que um sinal e um convite para que continuemos a nos ver e a nos falar através da recordação.
A amizade é um sentimento que dignifica a espécie humana; capaz de elevar a conduta pessoal a níveis de desprendimento, humanismo e heroísmo que chegam a surpreender a opinião do mais frio observador. No entanto, apesar disto, é fugaz, efêmera. Quantos distanciamentos incompreensíveis! Quanto sofrimento nas separações que jamais se cogitou! Quanta incompreensão! E a que se deve tudo isto? Por que o sentimento morre como se nunca tivesse existido?

Um amigo é uma riqueza imponderável que nos acompanha sempre. Nem mesmo o distanciamento ou a morte poderá abalar uma amizade conscientemente cultivada. Cada amizade é como uma planta que poderá florir se dispensarmos a ela o cuidado que exige tudo aquilo que queiramos que seja permanente em nossa vida. Para mantê-la será necessário aprender a protegê-la de pensamentos mesquinhos, interesseiros e egoístas; será necessário aprender a perdoar um agravo e compreender que por detrás dele deve haver algum defeito, algum equívoco comum a qualquer pessoa.

Os defeitos pessoais são muralhas psicológicas que precisam ser removidas com inteligência, como as da China, para que o homem possa conviver melhor consigo mesmo e com os semelhantes, e compreender qual a finalidade de sua vida no planeta.

Nagib Anderáos Neto
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