Thursday, April 26, 2012

A Fé Consciente

"Aquilo que não se compreende não se possui", escreveu J.W. Goethe. "Entendo, mas não compreendo", dizem os universitários frente a uma passagem complexa de uma demonstração teórica. A compreensão implica uma apreensão total, posse, integração de um fragmento de Verdade ao patrimônio pessoal. É uma iluminação interior, uma culminação fruto de um processo no qual a inteligência e a sensibilidade participam. Um fragmento de Verdade pode ser vislumbrado pela intuição, mas deverá ser confirmado pela razão de forma que, como compreensão, faça parte do patrimônio individual. Se não se confirma pessoalmente propende-se à fé cega, à anulação da inteligência, à falência da mente e do espírito. O que se compreendeu, a compreensão, implica uma fé consciente fruto da comprovação da Verdade pela razão. A compreensão é de índole espiritual, acrescenta ao espírito o que lhe falta. Nada tem a ver com a ilustração do intelecto senão com a formação da individualidade. A necessidade espiritual, o vazio interior, a fome por Verdade e conhecimento superior, existe em todos os seres humanos. Uma fome que tem sido alimentada com o pão amanhecido da ilusão e da tergiversação. À fé consciente se chega pela compreensão, posse gradativa de fragmentos de Verdade que se obtém no decorrer do processo da vida; pela liberação espiritual que somente o indivíduo pode fazer por si mesmo.

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Monday, January 17, 2011

Livros Para Homens Livres

Havia na estante a coleção completa do Tesouro da Juventude a me olhar desafiadoramente com o seu Livro dos Porquês e suas folhas cheirosas e brilhantes. E lá também o resumo de grandes obras literárias, iniciação juvenil, verdadeiras janelas abertas para o mundo. E Lobato, o mágico, com a Gramática da Emília, Reinações de Narizinho, Os Doze Trabalhos de Hércules e a mitologia ao alcance de todos. Havia a coleção arrumada das Seleções até o último exemplar do mês e O Pequeno Príncipe presenteado pelo professor de latim quando fiquei encarcerado no quarto por causa de uma hepatite devastadora.

Havia o rádio e os relógios decompostos que eu jamais fizera funcionar novamente. E Stefan Zweig falando de um país de um futuro que não chegava nunca sepultado entre Fouché, Maria Antonieta, Maria Stuart, Caleidoscópios e Calvino.

Havia Huberto Rohden com sua idealizada perspectiva de um cristianismo sem templos ou sacerdotes e o Goethe, naquela edição castelhana com suas páginas finíssimas – presente de papai num 6 de setembro inesquecível –, com o seu Werther eternamente à procura do amor impossível. E aquela série inumerável dos livros do mês que mamãe devorava avidamente na fuga da rotina: Cronin, Amado, Clarice, Balzac, Victor Hugo, Humberto de Campos, Guimarães Rosa, Bíblias desgastadas e o missal que eu nunca li. E havia os dicionários, ah! os dicionários, uma vida e uma solidão naquelas estantes multicoloridas e promissoras, cânone familiar e singelo, garimpos de cultura. Mas não havia ali a pessoa do Pessoa e nem a Emily Dickinson construtora de naturezas. Não havia ali as flores de Baudelaire e nem o sábio astrônomo de um americano chamado Walt Whitman ou o Emerson com a sua poesia filosófica ou canto telúrico de Neruda. E não havia ali o Borges com os seus espelhos e labirintos e nem o argentino González Pecotche com a sua Logosofia revolucionária e humana, construtora de culturas e de ideais.

Havia ali uma promessa, uma plenitude e um vazio; livros adormecidos, espaços a serem preenchidos, pensamentos e idéias enclausuradas em páginas comprimidas pelo esquecimento à espera do toque mágico da mão curiosa, do olhar atento e inquiridor do aprendiz que poderia libertá-los do silêncio e do sono e torná-los, redivivos, fachos luminosos nesses obscuros caminhos criados pelo homem moderno.

Havia ali livros. Livros feitos por homens e para homens livres.


Nagib Anderáos Neto

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