Thursday, March 21, 2013

A Insustentável Arrogância



Do latim arrogantia, orgulho que se manifesta por atitudes altivas e desdenhosas; soberba, insolência, atrevimento. É o que nos transmitem os modernos dicionários da língua portuguesa.
Mais do que a definição do termo, interessa-nos o perfil do pensamento que está na mente da maioria dos seres humanos.
O que é a pessoa soberba? A sabida? A que gosta de humilhar os outros? A que sutilmente se arroga a uma posição fictícia com o indisfarçável intuito de diminuir os outros? Que se acha esperta e que todo o mundo não sabe nada?
A pessoa extremamente arrogante põe a descoberto um defeito ou deficiência psicológica que, em menor ou maior grau, todos temos: a soberba, oposta à humildade, que insensibiliza as pessoas, faz o chefe pisar no subordinado, o inferior se revoltar contra aqueles que estão hierarquicamente acima dele, mas que quando ascende a cargos superiores se torna mais cruel do que foram com ele. Não é difícil identificar nas outras pessoas este defeito; o difícil é reconhecê-lo em si, porque fomos educados para olhar o que nos cerca sem perceber o que ocorre em nosso mundo interior, na nossa alma; é fácil criticar os outros, mas difícil realizar a autocrítica.
A soberba é irmã siamesa da vingança, da desconformidade. O fato é que ela existe na maior parte das pessoas. É um pensamento que deve ser identificado e combatido, para o nosso bem e felicidade.
Como muito bem apontou González Pecotche no livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, “a soberba não tem lugar nas almas grandes nem nos espíritos fortes e bem equilibrados. O soberbo é violento, e sua palavra, lacerante. Agrada-lhe humilhar e depreciar. E, além do mais, ambicioso; aspira ao trono material e não vacila se, para ascender a ele, deve valer de meios pouco dignos e em detrimento do próximo”.
O soberbo é ingrato, incapaz de reconhecer a atenção e a ajuda que outros despenderam a ele. A ingratidão é um dos grandes males dos quais os seres humanos padecem e causadora da depressão e do vazio.
Oposta à soberba é a humildade, virtude que tem a ver com a simplicidade e a naturalidade e que não deve ser confundida com a falsa, tão comum nos impostores fantasiados de bondosos, generosos e mansos, os que escondem em seu íntimo a pretensiosa ambição de subjugar as mentes e as vontades das pessoas tristemente qualificadas de boa-fé.
A soberba, como tantos outros defeitos humanos, afasta o homem de seu semelhante, da alegria, da felicidade.
 Ocupar-se de si, identificando os próprios defeitos com o objetivo de combatê-los, faz parte de uma educação de exceção que escola alguma é capaz de ensinar.

Nagib Anderáos Neto

Labels: , ,

Tuesday, March 20, 2012

Acidentes e Suas Causas

Ao se optar por viver em concentrações urbanas que se ampliam desordenadamente, potencializaram-se os riscos de acidentes nos lares, ambiente de trabalho, transporte, lazer, atividade humana em geral.
O acidente e o incidente, em geral, não são acontecimentos fortuitos ou obra do destino, senão a conseqüência da imprevisibilidade, falta de atenção, desinteresse e ignorância.
Se as cidades crescem desordenadamente, se há falhas nos projetos, nas máquinas e na manutenção; se não se cuida devidamente do meio ambiente e dos seres humanos, toda a sociedade é responsável: os governos em todos os níveis e as pessoas que por vontade ou falta dela permitem o continuísmo na administração pública, a ineficiência, a desumanidade. Todos têm sua parcela de responsabilidade.
Todo acidente tem uma causa e quase sempre poderia ser evitado. Dois fatores determinam, isolada ou combinadamente, qualquer um: uma condição e um ato inseguros. Por detrás deles estão os erros que se sucedem em cadeia e causadores de pequenos acidentes como de grandes catástrofes. A sua análise nos levará à conclusão que ele poderia ser evitado. Há causas psicológicas sempre presentes: a pressa, a desatenção, a falta de treinamento e o desinteresse pelo que se realiza.
A desatenção é um estado de torpor psicológico, ausência que nos faz estar em muitos outros lugares distantes daquele em que nos encontramos, desviando o foco da inteligência daquilo que realizamos. Essa ausência mental é causadora de muitos acidentes. É necessário cultivar o hábito da atenção no que se faz para evitar pequenos e grandes transtornos. Um instante de desatenção poderá nos tirar a vida ao atravessar uma via pública ou dirigir falando num celular.
E de onde provém a desatenção? Qual a causa?
Todos vivem muito apressados, pressionados por compromissos e horários, numa louca e absurda carreira que chega a comprometer a saúde física e psicológica. Ao fazer tudo apressadamente, a qualidade do que se realiza fica comprometida; a correria leva ao automatismo, à desatenção, ao desprezo pelos detalhes que mereceriam um olhar mais detido e cuidadoso. É como se as pessoas corressem atrás de um futuro que não chega nunca; e almejassem um final sobre o qual se precipitassem sem saber qual seria.
A pressa é uma doença causadora de erros, acidentes e desentendimentos; urticária psicológica que atormenta, tornando as pessoas desatentas, esquecidas, ineficazes. Leva-nos a falar demais, correr e ser superficial; uma fuga, incomoda hóspede psicológica, uma incompreensão, falta de conhecimento. Por detrás dela há um defeito que se chama impaciência, doença moderna que danifica o sistema nervoso.

No livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, o educador González pecotche afirma que “o impaciente é um escravo do tempo, desse tempo fantasmagórico que nada tem a ver com o autêntico, que tão frequentemente o homem dissipa em banalidades, justamente por desconhecer seu real valor.” E que“ a paciência é uma das virtudes mais valiosas e também mais difíceis de alcançar. Todavia, sua posse não é impossível, seguindo-se rigorosamente o processo de compreensão, adestramento e realização que a colocará em seu alcance. “

Saber esperar é o mesmo que saber viver, desde que a espera não seja passiva, a que faz sofrer.

O desatento é facilmente enganado por ser a ingenuidade fruto da esterilidade mental, sinônima de inconsciência. A desatenção leva ao descuido e à irresponsabilidade que prejudicam as pessoas em qualquer atividade.

A atenção e o cuidado são predicados indispensáveis para se evitar acidentes cujas conseqüências podem ser males irreparáveis.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

Labels: , , , , , , ,

Monday, March 09, 2009

A Paciência e o Tempo

Não importa se vamos devagar, o importante é não parar, teria dito o pensador chinês Confúcio (551ac – 479ac), para quem transportar um punhado de terra todos os dias permitiria fazer uma grande montanha. Para ele, não corrigir as nossas falhas seria o mesmo que cometer novos erros. Seus ensinamentos não conformavam uma religião, senão um guia comportamental para ser posto em prática. Consta que ensinara que cada um deveria corrigir a própria conduta antes de tentar corrigir a alheia.

A síndrome da urgência é uma doença da modernidade, apesar da sabedoria popular já nos ter prevenido sobre os seus prejuízos e os da impaciência. A pressa é inimiga da perfeição, costumávamos ouvir dos mais velhos. E para com quem tem urgência, devemos ter paciência.

O bem mais precioso da vida é o tempo que em essência é a própria vida; para ganhá-lo, seria necessário aprender a pensar, criar soluções para os problemas do dia-a-dia; idéias e pensamentos que fossem úteis a todos.

As pessoas apressadas, as que estão sempre a cobrar urgência de si e dos outros, são as que mais violentam o tempo e a vida, as que mais erram, pois fazem tudo superficialmente, apressadamente.

A natureza segue seus processos e ciclos, não tem pressa, é uma mestra exemplar.

As invenções humanas formas de conquistar tempo livre que depois é desperdiçado por não se saber o que fazer com ele. São os paradoxos da inteligência capaz de imitar a natureza para inventar coisas maravilhosas, e depois deixar que aquelas modernidades venham destruir o próprio homem, pelo excesso de comodidade e falta do que fazer, do que pensar, no imenso tempo que sobra.

O que fazer? Como liberar-se da escravidão imposta pelos ponteiros do relógio e pela urgência? Como adiantar-se ao tempo?

A pressa é uma doença causadora de muitos erros, acidentes e desentendimentos; uma espécie de urticária psicológica que atormenta a todos, tornando as pessoas desatentas, esquecidas, ineficazes. Levam-nas a falar demais, correr demais e ser superficial.

Todos vivem muito apressados, pressionados por compromissos e horários, numa louca e absurda carreira que chega a comprometer a saúde física e psicológica. Ao fazer tudo apressadamente, desesperadamente, a qualidade do que se realiza fica comprometida; a correria leva ao automatismo, à rotina, à desatenção, ao desprezo pelos detalhes que mereceriam um olhar mais detido, cuidadoso. É como se as pessoas corressem atrás de um futuro que não chega nunca; como se almejassem um final sobre o qual elas se precipitassem sem saber qual seria este desfecho.

A rotina e a pressa são causadoras da depressão, do vazio e da tristeza. Fazer tudo sempre da mesma maneira, sem nenhuma variação ou renovação, faz fracassar a capacidade de iniciativa da inteligência submergindo o indivíduo no marasmo do tédio e na desconfortável sensação de inutilidade.

Aproveita-se o tempo fugindo da rotina, rompendo com os hábitos, as mesmices, os preconceitos. "Sejamos como os rios que renovam constantemente suas águas", escreveu certa vez González Pecotche, o criador da Logosofia.

Ao agir mecanicamente, rotineiramente, não se pensa no que se faz; vive-se distraída e esquecidamente. É necessário criar o hábito de pensar, aperfeiçoar tudo o que se faz e colocar novas atividades e novos estímulos na vida individual.

Não sejamos como Sísifo, o trágico herói mitológico condenado a realizar por toda a eternidade um trabalho inútil e sem esperança. Transformemos a vida renovando e aperfeiçoando nossos pensamentos, criando novas atividades e superando as próprias condições pessoais.

Numa cidade grande parece que todos estão a correr dos outros e de si para se entocar num fosso ou se precipitar numa depressão que os mais astutos e careiros médicos de alma não conseguem curar.

A pressa é uma fuga, incomoda hóspede psicológica, uma incompreensão, falta de conhecimento. Por detrás dela há um defeito que se chama impaciência, doença que danifica o sistema nervoso.

No livro Deficiências e Propensões do Ser Humano, González Pecotche diz que “o impaciente é um escravo do tempo; deste tempo fantasmagórico que nada tem a ver com o autêntico, que tão freqüentemente o homem dissipa em banalidades, justamente por desconhecer o seu real valor”.

E o autor sugere que quem padeça dessa doença se exercite no cultivo da paciência inteligente e ativa, a que “além de infundir serenidade torna o homem compreensivo, permitindo-lhe pensar com utilidade e proveito, e estar atento às suas necessidades e deveres durante todo o tempo, curto ou largo, que abarque a espera”.

Em síntese, saber esperar é o mesmo que saber viver, desde que a espera não seja a passiva, a que sempre nos faz sofrer.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

Labels: , , , , , ,

Tuesday, October 31, 2006

Liberdade Pelo Pensamento

É possível que o temor da morte provenha do fato de se pensar que tudo termina com a vida.
A morte verdadeira é o não pensar, uma tirania que aprisiona a inteligência, uma escravidão mental.
Como sentir a eternidade dentro de si?
Não estamos morrendo todas as noites para despertar no dia seguinte?
Na Comédia de Dante, diz o poeta: “O pior dos suplícios é sentir-se morto sem acabar de morrer, é sentir-se quase vivo estando morto, e ansiando morrer, seguir vivendo”.
A morte tem a ver com a falta de estímulos, de interesse e esperança pelo futuro.
O essencial é a atividade, o movimento, o equilíbrio. É necessário abandonar a inércia e a desesperança, construir um novo futuro e um passado, ressurgir das cinzas como o pássaro imortal, uma verdadeira ressurreição que a lenda de Lázaro não pôde explicar.
Por que o espírito humano busca o conhecimento e o aperfeiçoamento? Por que busca o acercamento com Deus?
A liberdade do homem é construída sobre o pensar. Quanto mais pensar, mais livre será. Mas o que é pensar? A movimentação discricionária de pensamentos na mente seria pensar? Não, isso não é criar soluções luminosas, optar por caminhos, selecionar o que convém para o bem e felicidade próprios e alheios.
Ao pensar, opomo-nos à fatalidade e liberamo-nos do destino comum, da vida comum, da mediocridade.Trata-se de opor à fatalidade um destino próprio, construído pela pessoa, que será viável através do conhecimento, do domínio dos pensamentos.
Qualquer obstáculo pode ser transformado em instrumento de aperfeiçoamento pessoal através da utilização da inteligência. Um defeito pessoal que nos incomoda poderá mover-nos para combatê-lo, extirpá-lo, para mudar. E mudando poderemos ir construindo um novo futuro, um novo destino. Nenhuma idéia diferente ou oposta à do aperfeiçoamento poderá nos impulsionar para a construção de uma vida mais ampla e feliz.
Um dos preceitos gravados no Templo de Delfos era o “Conhece a ti Mesmo”. Platão diz através de Sócrates - personagem de um de seus escritos -: “Parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha a examinar coisas que não me dizem respeito... Não são as fábulas que investigo; é a mim mesmo”.
Esse conhecimento implica conhecer os defeitos pessoais. É muito comum censurarmos os dos outros. Ao evitar, em nós, os que censuramos, estaríamos realizando uma pequena parte daquele Conhecimento inscrito no Templo grego.
Assim como a fome e a sede são sinais de nosso organismo indicando que precisamos nos alimentar, nossos defeitos são sinais que nosso organismo psicológico nos dá indicando que devemos mudar. E o nome dessas mudanças é “educação espiritual”; construção de uma nova conduta que deverá nos ocupar diariamente, da mesma forma como dormimos e nos alimentamos, para não cair na inanição mental, na indigência espiritual.
Para González Pecothe, o criador da Logosofia, “o quadro das deficiências que a criatura humana apresenta, desde que nasce até o final de seus dias, poderia parecer desalentador. Todavia, isso não deve abater o seu ânimo, porquanto é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica, suportando docilmente a maioria dos desgostos e depressões que diariamente ocasionam”.

Nagib Anderáos Neto

Labels: , , , , , , , ,