Thursday, June 13, 2013

Traidores e Tradutores





É consenso entre escritores e leitores que todo tradutor é uma espécie de traidor, mesmo quando se está a interpretar pensamentos alheios no próprio idioma. O que não dizer quando se trata de fazê-lo de outros?



Traduzir vem do latim traducere, que significa conduzir além, transferir. Tradutor, do latim traductore. Traidor, do latim traditore.



O “tudo vale a pena se a alma não é pequena” de Fernando Pessoa poderá ter inúmeras interpretações, e nenhuma delas chegar perto do que o poeta pensou e sentiu ao urdir as dez pequenas palavras no verso tantas vezes repetido.



O misterioso “ser ou não ser” de Shakespeare poderia ser traduzido por saber ou não saber, existir ou não. Talvez estivéssemos dando um conteúdo nesta traição que o poeta inglês sequer cogitara.



A “Morte a Deus” escrita pelo jovem Rimbaud nas portas das igrejas, como o “Deus está morto” de Nietsche, poderia significar que o jovem poeta estivesse mais próximo d`Ele, como ponderou Henry Miller, que os arrogantes poderes que dominavam a igreja daquele tempo.



“A palavra morre quando é dita, alguém diz. Eu digo que ela começa a viver naquele dia”, escreveu Emily Dickinson, a incomparável poetisa da América num econômico inglês que lhe era peculiar. A que palavra estaria ela se referindo? O que é a palavra? Ela vive? Morre? Sobrevive a quem a pronunciou? Qual o mistério que a envolve e substancia? Qual sua força?



O mistério da palavra é o do pensamento. Ela é a expressão física daquele e pode desaparecer; ele não, o pensamento cruza o espaço e o tempo e pode sobreviver.



Cada palavra é um símbolo mágico, metáfora viva que pode ser decifrada e interpretada, traduzida para o idioma metafísico.



Quando ouvimos Drummond dizer: “havia uma pedra no caminho”, a sutileza metafísica é gritante; não é uma pedra física, é mental, um obstáculo a ser removido, um problema a ser resolvido.



A palavra Deus reporta a uma imagem que vem do conceito que se tenha; pode ser um senhor com uma enorme barba, ou o próprio Universo, ou um animal sagrado, o sorriso de uma criança, o gesto generoso de quem nos ajuda, ou uma inteligência maior de onde todas as demais provêm, ou absolutamente nada. A palavra refere-se ao conceito e pode ser uma metáfora morta se não evolui com o tempo transformando-se num preconceito.



As palavras, expressões físicas dos pensamentos, são pequenos detalhes com os quais se poderá chegar a Deus ou mergulhar na escuridão.







Nagib Anderáos Neto

www.nagibanderaos.com.br

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Monday, June 03, 2013

Consciência e Meio Ambiente




Questões ambientais e sociais deixaram de ser marginais ao negócio e passaram a ser essenciais, estratégicas. O conceito de sustentabilidade transcendeu a questão ambiental alcançando a social e a educacional. Responsabilidade na utilização dos recursos naturais, no consumo e trato com a sociedade, faz parte da administração moderna.



A preocupação com o meio ambiente e o ser humano é conseqüência da estranha modernidade que se observa, com o afastamento entre as pessoas e os povos provocado pela ignorância e preconceitos de toda a ordem. Ela poderá se transformar num fator de união de esforços para a melhoria das relações com a Natureza e entre as pessoas.



Desenvolvimento sustentável, além de responsabilidade social, crescimento inteligente e cuidado com o meio ambiente, deveria significar desenvolvimento humano, respeito às diferenças e fraternidade.



Nenhum país pode ser considerado desenvolvido ao arvorar-se à condição de manipulador de idéias e pensamentos para subjugar os demais. O mesmo acontece com as pessoas; a imposição é sinônima de impostura e presunção. Inteligência pressupõe exposição, ao invés de imposição.



A crise ecológica que presenciamos é conseqüência de uma grave crise humana e social. O ser humano desentendeu-se consigo , com os semelhantes e a Terra. As guerras e os graves problemas ambientais são as conseqüências desses desentendimentos.



A globalização é uma quimera. Os homens estão divididos social, racial, religiosa e geograficamente. No pequeno planeta criaram-se mundos distantes onde explorados e exploradores convivem numa aparente harmonia.



No dizer de Polibus, não existe testemunha tão terrível, nem acusador tão implacável como a consciência que mora no coração de cada homem. Diríamos que essa consciência, que pode ser conhecida e desenvolvida, a parte de Deus que habita cada coração, é para a qual cada homem haverá de prestar contas um dia, pelo que fez e deixou de fazer; a única, verdadeira e incontestável juíza que todos carregam consigo desde o instante que nascem e que pode ser ampliada no processo da vida através da evolução que implica a aquisição de conhecimentos. A questão do momento é sua ampliação, que muito tem a ver com a sede por eternidade e a fonte da eterna juventude que os antigos pressentiam e que nos permitirá projetar um futuro e construir um passado que poderá se converter num infinito presente que chamaríamos eternidade.



Quando boa parte da humanidade despertar do sono, da indiferença e da inconsciência, e aderir ao silencioso e crescente movimento em defesa do meio ambiente e do ser humano, a revolução ecológica – espiritual se fará sentir em muitas partes e será corrigido o rumo equivocado em que se lançou a humanidade pelos obscuros caminhos do materialismo e da ignorância. A nova cultura será o produto de uma grande revolução a ser travada no íntimo das pessoas. Mais do que informativa, ela será formativa, proporcionando a ampliação da consciência e o cultivo de pensamentos e sentimentos que unam as pessoas ao invés de distanciá-las, como têm feito a política, as fronteiras, as religiões e, sobretudo, as ambições desenfreadas que deverão ser substituídas pelo ideal de estudo e fraternidade. Além de cuidar do meio ambiente que o cerca, o homem aprenderá a cuidar do ambiente mental de onde provêm os pensamentos e as idéias que podem elevá-lo ou mergulhá-lo na escuridão.



O homem tem se afastado de si mesmo, dos seus semelhantes e de Deus por insistir em manter uma fé no que desconhece. Somente através do conhecimento poderá reencontrar-se e descobrir o Deus oculto em seu coração e nos de seus semelhantes.



Não bastam as leis se não há consciência e entendimento para que elas se cumpram, e homens de iniciativa, vigilantes, que colaborem para que o planeta e seus habitantes se recuperem.







Nagib Anderáos Neto

neto.nagib@gmail.com











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Wednesday, April 17, 2013

A Intolerância

Nagib Anderáos Neto |  Filtro familiar:desativado  |  Sair
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Texto

A Intolerância


Giordano Bruno - o pensador italiano que foi queimado vivo na Idade Média por ter defendido a idéia da infinitude do Universo e de sua transformação contínua - é um exemplo eloquente do obscurantismo e da intolerância daquela época quando todos deveriam prestar aceitação cega às “verdades” estabelecidas.

Algum tempo depois, Galileo Galilei (1564 - 1642) teve de abjurar para não ter o trágico fim do compatriota. Ele defendia a idéia, absurda para a época, de que a Terra não era o centro do Universo. Embora tendo escapado à morte, teve de conviver com uma prisão domiciliar até o final de seus dias.

Spinoza, como Sócrates, foi condenado pelo poder político local por opor-se às idéias dos dirigentes, por não cultuar as suas personalidades e nem as divindades do Estado, por afirmar que a verdadeira salvação consistiria no conhecimento que é oposto ao fenomênico e sobrenatural que forjam as bases do ateísmo. Para ele, não poderia haver um Deus ou um conhecimento propriedades de algum agrupamento porque Deus e o conhecimento não são contingentes e nem privilégio de ninguém, por serem imanentes.

Estas páginas trágicas de nossa história servem para uma reflexão sobre a intolerância e suas conseqüências, pois ela continua tão presente como naqueles negros dias medievais.

Dentre os defeitos ou deficiências psicológicas do ser humano, a intolerância é a que mais dificulta a convivência. E essa dificuldade, a de conviver, é um grande obstáculo para a evolução humana que necessitará do concurso inestimável de seu semelhante na jornada de aperfeiçoamento que deverá empreender durante a sua vida; se não sabe conviver, terá a sua evolução limitada.

A intolerância implica  falta de respeito às idéias alheias,  inflexibilidade,  dureza de juízo.

É difícil aceitar as idéias de outras pessoas quando não coincidem com as nossas; isto porque fomos educados nessa rigidez comportamental que nos impede compreender que podem existir idéias que difiram das nossas e os que as defendam não são, necessariamente, nossos inimigos.

A intolerância leva o ser humano a não admitir oposição. O intolerante vê no opositor um inimigo sem aperceber-se que a oposição pode ser construtiva, pois nos faz pensar, refletir sobre nossos pontos de vista e concluir, algumas vezes, que podemos estar errados. Os ditadores não admitem oposição. O opositor deve ser afastado, eliminado; só assim o ditador sente-se confortável.

Os que impõem, os impostores, estão aí, como naqueles negros dias medievais; nos governos, nas empresas, em instituições diversas, nas mentes dos seres humanos, pensamentos retrógrados que nos encarceram numa rigidez milenar e que têm afastado o ser humano de si mesmo e de seus semelhantes. Surpreender esta realidade em si  e trabalhar para eliminar esse tipo de pensamento é o único caminho capaz de livrar-nos desse obscurantismol.

Educar as crianças no sentido da flexibilidade psicológica, desde que as idéias antagônicas não firam os princípios básicos da harmônica convivência , significa incutir no educando a tolerância que lhe permitirá respeitar o seu semelhante e ser respeitado.


NAGIB ANDERÁOS NETO
neto.nagib@gmail.com


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Tuesday, March 27, 2012

Deus e os Detalhes

Uma velha citação diz que Deus está nos detalhes. Uma outra, que a poesia é feita de detalhes e pode ser vida. E ainda, que o poeta, como os cegos, é capaz de enxergar na escuridão.

Esta última, como as demais, leva-nos a Borges, com seus espelhos e labirintos. E sem nenhum esforço, vêm-nos à mente alguns poucos e misteriosos versos do poeta argentino:

Às vezes nas tardes uma cara
Nos mira desde o fundo de um espelho;
A arte deve ser como este espelho
Que nos revela a nossa própria cara.

Conheci um outro menino que se assustava com os espelhos. Porque aquela cara que o mirava desde o fundo do espelho não era a cara dele. E se perguntava: “que cara é esta? Eu não sou esta cara!”.

A vida haveria de revelá-la.

Então é certo: a poesia é feita de detalhes e pode ser vida. E cada cara traz um enigma, um mistério, uma história, uma herança. Cada uma com uma fisionomia própria, nunca iguais, mesmo as dos gêmeos mais parecidos, como as impressões digitais, um mistério particular, não a cara, mas o que haveria por detrás dela, a fisionomia particular, a expressão metafísica, a verdadeira e desconhecida face.

Detalhe, espelho, Deus, cara. Cada palavra um símbolo-mágico, metáfora-viva. Homem, alma, espírito. Cada qual haverá de decifrá-la.
E sem nenhum esforço da memória, vem-nos à mente Emily Dickynson, novamente, a murmurar:

A palavra morre
Quando é dita,
alguém diz.
Eu digo que ela começa
A viver
Naquele dia.

As palavras não são metáforas-mortas, são vivas que podem e devem evoluir através dos tempos; principalmente as que representam certos conceitos de extrema importância para o ser humano: vida, mente, existência, Deus, felicidade, alma, espírito, inteligência, sensibilidade.

A palavra “pedra”, por exemplo, refere-se a algo físico que conhecemos e pode nos vir à mente no exato momento de ouvi-la.
Quando ouvimos Drummond dizer: “havia uma pedra no caminho”, a sutileza metafísica é gritante; já não é uma pedra física, é mental, um obstáculo a ser removido, um problema a ser resolvido.

A palavra Deus, dependendo de quem a ouça, reporta a uma imagem que vem do conceito que se tenha; pode ser um senhor com uma enorme barba e que vive no céu, ou o próprio Universo com tudo o que nele existe, ou um animal sagrado, o sorriso de uma criança, o gesto generoso de quem nos ajuda, ou uma inteligência maior de onde todas as demais provêm, ou absolutamente nada. A palavra refere-se ao conceito e pode, sim, ser uma metáfora-morta se não evolui com o tempo transformando-se num preconceito.

As palavras, expressões físicas dos pensamentos, são pequenos detalhes com os quais se poderá chegar a Deus ou mergulhar na escuridão.

Nagib Anderáos Neto

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Tuesday, January 24, 2012

O Discurso de Descartes

Descartes é considerado o pai da moderna filosofia. Nascido em 1596, teve suas obras condenadas pelos religiosos que a consideraram eivadas de ateísmo e imoralidade. Contrário às tradições, decidiu não procurar qualquer saber que não pudesse ser encontrado nele mesmo e no “livro do mundo”. Dedicou-se à investigação de si mesmo e morreu em Estocolmo de pneumonia, aos 54 anos. Matemático e criador da geometria analítica, ele ficou mais conhecido como filósofo por se dedicar às questões metafísicas, à existência de Deus e ao estudo da natureza humana. Mais do que estava escrito nos livros e na sujeição a preceptores, procurou o conhecimento pessoal na experiência da vida e nas reflexões.
Preocupou-se com o ser pensante, o campo da consciência, a demonstração da existência de Deus, Verdade pura; considerou-se como “um homem que caminha só em meio às trevas”. Para ele, a certeza de Deus provinha da certeza de si mesmo.
O discurso de Descartes descreve um método próprio através do qual o filósofo poderia chegar a várias conclusões no campo da matemática e da metafísica por conta própria. E é incrível constatar que após quase quatrocentos anos, a premissa básica do enunciador do aforismo “penso logo existo” não foi compreendida.
A razão humana não deveria aceitar passivamente, credulamente, nenhum conhecimento. A atividade da inteligência deveria filtrar e analisar tudo aquilo que em matéria de conceitos pudesse ter sido transmitido através da educação recebida promovendo uma revisão geral, a começar pelo da própria vida: viver por quê? E para quê? O método principia com a negação geral e o axioma básico “penso logo existo”; inspirado nas matemáticas procura provar a existência de Deus e o primado da alma sobre o corpo.
Dos seres vivos conhecidos, só o homem pensa, produz idéias e pensamentos. Numa linguagem mais apropriada, diríamos que só ele pode pensar; porque a maioria não o faz; imagina que o faça quando, na verdade, segue os pensamentos pensados por outras pessoas; é a ilusão da criação mental de uma humanidade acostumada e acomodada à condição de espectadora do drama humano. Pensar implica criação: forjar idéias e pensamentos que se consubstanciem em ação e sirvam para o bem e aperfeiçoamento próprio e dos semelhantes.
O “penso logo existo” poderia ser substituído por “crio logo existo”, pois somente tornando-se um criador se poderá eternizar. E como a maior obra seria a de esculpir em si um novo ser humano através da evolução pessoal, cada um, tornando-se criador de si mesmo, poderia afirmar que é a imagem e semelhança de um Criador maior.

Nagib Anderáos Neto
www.twitter.com/anderaosnagib

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Monday, December 12, 2011

A Cultura na Formação de Uma Nova Civilização

Os seres humanos passam por aqui, vivem um tempo, deixam um dia esta Terra, mas fica a cultura, o cultivo de pensamentos e idéias urdidos em palavras e obras. Todo indivíduo pensante contribui para o aquilatamento da cultura que é um legado para as gerações futuras.
Da mesma forma que um grão de areia encerra em si todo um Universo, cada ser humano pode concentrar toda uma humanidade e ser uma ínfima representação da Sabedoria Universal, do próprio Deus que nela Se confunde.
A grandeza de uma cultura pode ser o fundamento de uma Nação e amplia-se com o aumento da capacidade de estudo. A instrução continuada deverá ser o pilar principal de qualquer política. Tudo o mais será conseqüência dela, pois a maior vocação do espírito humano é a criação, a realização para o que o estudo contribui diretamente. A Pátria e o espírito nacionalidade provêm dessa realização. O estudo individual e coletivo unem os seres humanos na realização e compreensão das altas finalidades do ser humano.
Existe uma cultura comum e informativa cujos alcances estão limitados à sua superficialidade. Há também uma mediana que se eleva por sobre as capas da ignorância e alcança os bancos universitários, mas quase sempre circunstanciada a aspectos materiais da vida, sua subsistência, ou mesmo alguns prazeres intelectuais que roçam uma pseudo-superioridade que se desmorona ao mais leve confronto entre as personalidades desenhadas com aparente refinamento, mas com uma grande incapacidade por reconhecer as suas limitações.
Existem os lampejos de uma nova cultura, a superior, onde o espírito humano se libera das amarras da mediocridade, do egoísmo e da superstição que tanto o limitam e aprisionam.
As linhas divisórias entre as diversas culturas estão na qualidade, conteúdo e hierarquia dos conhecimentos que as concretizam, indo da experiência pré-histórica da sobrevivência, na qual as armas serviam para matar as feras que ameaçavam o homem e, passando por nossa época, quando as mesmas armas servem para se exterminarem, pois as feras que os ameaçavam no passado acabaram surgindo em suas mentes como pensamentos monstruosos que querem destruir a vida no planeta, até chegar a um futuro superado, esperança de toda a espécie, uma nova civilização na qual se reconhecerá em tudo quanto existe a expressão vívida da Sabedoria Universal merecedora de toda a reverência e respeito.
A nova cultura será o produto de uma grande revolução a ser travada no íntimo dos seres humanos, no âmbito de seus pensamentos e sentimentos, através da eliminação do que lhes tem dificultado a convivência pacífica, pois inteligência pressupõe harmonia interior e entre as pessoas. Mais do que informativa, ela será formativa, na qual os espíritos ávidos por conhecimentos haverão de ampliar a consciência e cultivar pensamentos e sentimentos de natureza superior através do estudo e esforço próprios.
O ser humano do futuro deixará de lado as ambições que deságuam em insanos sonhos de poder e riqueza substituindo-os pelo amor ao estudo e ao saber. Além do meio ambiente que o cerca, aprenderá a cuidar do próprio ambiente mental de onde provêm os pensamentos e as idéias que podem elevá-lo ou mergulhá-lo na escuridão.

Nagib Anderaos Neto
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Monday, June 06, 2011

Criatividade sem Autoritarismo

O homem que pensa cria, e luta por neutralizar seus baixos instintos. Paz e felicidade são asseguradas através do estímulo à criatividade que é tolhido nos jovens e nas crianças pelo autoritarismo, resquício medieval de inquisidores cruéis que se reproduzem como pragas na sociedade moderna e contra os quais se deve lutar, empenhando-se na busca da verdade como resposta à covardia e ao medo disseminado pelos impostores. Como muito bem dizia Russel, a moralidade nada tem a ver com regras ditadas por qualquer autoridade.

Se Deus é a Natureza e o Universo, e o homem parte de tudo, ele é um Deus em formação que através do conhecimento de si, um dos principais objetivos da vida inteligente, poderá transformar-se em Homem através da evolução. Desta forma, Deus não é assunto de adoração, veneração ou crença, senão de conhecimento.

A imortalidade encontra respaldo na ciência desde que um pensamento criado por uma pessoa possa sobreviver à sua morte. A História está repleta de exemplos, a criação sobrevivendo ao criador. Biologicamente, isso está arquicomprovado. Deus cuida da espécie, o indivíduo deve cuidar de si.

O cérebro morre com o corpo, mas os pensamentos podem sobreviver. A palavra tem um corpo, uma alma e um espírito, como bem ponderou o pensador González Pecotche. O corpo, a palavra escrita, a alma, a pronunciada, e o espírito a impronunciada, sua essência que pode se imortalizar.

Deus não escreve livros, e sim homens, naturezas, o Universo. Este é o Verbo Divino. Homens escrevem livros, e a linguagem humana provem daquela – a ancestral - pois visa nomear uma escritura maior.E de onde provêm as diversas línguas criadas pelos homens?

A linguagem - as palavras que deveriam ser utilizadas para nomear o Verbo e para que os homens se unissem neste trabalho - passou a ser instrumento de dissensão. Então surgiram as línguas, os afastamentos, a linguagem decaída, a babélica.Se a palavra escrita é o corpo físico do pensamento, para se chegar a ele – que é invisível, incorpóreo –, poderemos fazê-lo através dela.

Se o corpo físico do homem, o visível, o palpável, guarda em suas profundezas a inteligência, a sensibilidade e a essência invisível e intocada, ele - o espírito - assemelha-se ao pensamento, à essência invisível da palavra.

“O essencial é invisível aos olhos”, escreveu o inspirado piloto francês.

Assim, o espírito, como o pensamento – invisíveis e essenciais que são –, como os sentimentos, os sonhos e as recordações, deveriam merecer de nós uma atenção maior.

E como ocupar-se mais de si ? Como conhecer-se melhor?

A tarefa não é fácil, mas não impossível; começando por deixar de ocupar-se tanto dos outros e do que nos cerca, cultivando um olhar reflexivo e auto-observador. Somos especialistas na observação do que acontece ao redor, mas ausentes de nós. Não chegamos a aproveitar as lições do que nos cerca para aperfeiçoar-nos, que é o que mais deveria nos interessar.

Não somos muito diferentes de um pensamento que pode ser bom ou mau, que necessita reproduzir-se para sobreviver como espécie; que pode evoluir nos curtos anos de vida física.

Deus quer que o ser humano use a inteligência e o coração para aproximar-se da Verdade que se confunde com o aperfeiçoamento. Ele não é o pai vingativo que atemoriza os filhos e se regozija com guerras fratricidas que os insensatos, os impostores e os ditadores dizem fazer em Seu nome.

Lutar pela liberdade própria e social, procurando respirar as verdades imanentes à Natureza, e as que brotam da inteligência e do coração, é a sensata e eloqüente postura do aprendiz que, apesar de reconhecer as suas limitações, não se conforma com a imobilidade e a submissão.

Assim, para que não sejamos letra morta num livro inútil e sem vida, deveremos aprender a escrever a nossa história com letras visíveis e invisíveis, como autores e atores, ao invés de espectadores passivos a assistir aos dramas vividos por tantos que sofrem por não pensar, por falar línguas diversas, por estar sempre a se desentender.

E talvez possamos recuperar a linguagem perdida que na infância da humanidade sabíamos tão bem pronunciar.




Nagib Anderáos Neto
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Thursday, March 10, 2011

Agnosticismo Versus Conhecimento

Tudo o que sei é que nada sei, teria dito Sócrates, a personagem de Platão. Eu menos, pois nem sei se nada sei, escreveu Fernando Pessoa no poema Agnosticismo Superior.
O agnosticismo só admite conhecimentos adquiridos pela razão e evita qualquer conclusão não demonstrada. Ele trata as questões metafísicas como discussões inúteis, por serem, em sua visão, realidades incognoscíveis.
Quem formulou o tema por primeira vez foi o biólogo inglês Huxley no século XIX. Em sua origem, a palavra significa aquilo que é oposto ao conhecimento. O sentido empregue pelo cientista parece ter sido de que Deus jamais poderia ser conhecido.
Os homens criaram um deus a sua imagem e semelhança, uma personagem na qual se poderia acreditar ou não. Nesse sentido, o agnóstico seria a pessoa que não aceita ou não acredita naquela invenção, pois o deus criado pelos homens expulsou-os do paraíso por terem eles provado o fruto proibido do conhecimento, quando uma inteligência esclarecida haveria de supor que somente através dele, o conhecimento, se poderia aproximar-se Dele.
Paradoxalmente, os agnósticos não acreditam também na não existência de Deus, pois da mesma forma, para eles, que a existência de Deus não pode ser provada pela razão, sua inexistência também não o pode.
São lucubrações realmente confusas. Se Deus se confunde com a própria criação, como um homem se confunde com sua vida, seus filhos, seus amigos, suas obras, Ele pode, sim, ser conhecido.
O conhecimento do Universo físico, tal como a ciência tem empreendido, é uma forma de se chegar a Ele. O conhecimento da figura humana em sua conformação psicológica e espiritual, alem da biológica, é também uma complementação daquele. Pensamentos, sentimentos e emoções não são físicos, manifestam-se através do corpo, mas são metafísicos e cognoscíveis. Se atentarmos bem, a realidade do mundo metafísico é tão ou mais eloqüente que a do físico, por ser aquele o mundo das idéias, dos ideais, dos projetos, dos sentimentos, dos pensamentos e sonhos. Ao sonhar, podemos vivenciá-lo como quando experimentamos uma maçã. Todo artista toca neste mundo ao criar a sua obra e experimenta uma sensação sublime e indizível ao fazê-lo. Qualquer ser humano ao sonhar adentra a este mundo ao tornar-se ator e espectador naquela viagem.
Para os evolucionistas, o homem e o macaco teriam uma ascendência comum. Eles descartam a existência de Deus e concebem todo o Universo como obra do acaso. Os criacionistas cristãos acreditam que Deus criou o mundo como ele é; e assim também o homem. Os criacionistas evolucionistas julgam que Deus criou e foi o início de um Universo em permanente movimento, evolução e transformação, e que está presente em sua Obra.
Não podemos deixar de considerar que a biologia evolutiva é uma realidade e que há muito o que descobrir e aprender sobre o processo evolutivo. A realidade da evolução é incontestável; e o homem pode experimentá-la dentro de si conscientemente, e não apenas constatá-la materialmente. A evolução não se dá apenas por seleção natural. No homem ela pode ser realizada por seleção mental de pensamentos e idéias que tendam à evolução. Por tal fato, não é uma ilusão ponderarmos que somos súditos privilegiados nesta parte do Universo conhecida por termos mente e sensibilidade; capacidade de criar.
A crise que se vive, mais do que ambiental e cultural é uma crise espiritual que tem afastado o ser humano de seus irmãos pelos fanatismos, pela idolatria e a ignorância. Tudo evolui. O homem precisa evoluir, mental e espiritualmente falando, para deixar de ser cético e crente no que desconhece. Só o conhecimento libera; e a ele não se chega senão através de processos que tendam à evolução.
Não somos um tipo de macaco que reluta admiti-lo. Somos seres humanos que evoluem biologicamente e que podem chegar a fazê-lo espiritualmente se decidirem tomar as rédeas do destino e transformar-se psicológica e espiritualmente; à matemática biológica se deverá agregar a psicológica e espiritual que permitirão a complementação da evolução material. O Universo e o homem não são relativos.
O ponto de conciliação entre criacionistas e evolucionistas parece ser aquele que aponta o Universo como a face visível de Deus, e suas Leis, a invisível.
O homem nasceu para ser livre. Sua tristeza é ver-se acorrentado à escravidão mental imposta por preconceitos que sobrevivem em sua mente incompreensivelmente. Cada qual pode ser seu próprio Deus experimentando aquela liberdade e a consciência de existir. Os grilhões mentais são mais cruéis que os que sangravam os corpos de nossos antepassados que aqui foram a nossa vergonha e também a de Darwin.

Nagib Anderaos Neto
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Monday, February 21, 2011

A Lei do Tempo

O mistério do tempo é o da vida. De sua compreensão depende a conquista da felicidade.
Mais do que um bem precioso, o tempo é história, eternidade, paciência, sabedoria. Deus é paciência, disse a personagem de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas. Uma parte de Deus também é tempo, irmão da paciência, pois lá estava no inicio de todas as coisas.Paciência, movimento e mudanças são lições diárias que a Natureza oferece através de suas múltiplas faces para a inteligência que pode decifrá-las.
A fuga do tempo existe para quem não consegue retê-lo e multiplicá-lo. Neste caso, os ponteiros do relógio são uma tortura. Não há tempo suficiente para o cumprimento dos compromissos; ele passa muito rápido e escraviza a pessoa que julga que seja dinheiro, e, como tal, sempre lhe falte. Se tempo fosse dinheiro, Deus seria um banqueiro.
Os dias que se sucedem monotonamente são noites mentais, pedaços de vida que se desprendem da pessoa deixando o saldo do vazio, a sensação de inutilidade, o esquecimento, o temor pela morte que se aproxima a passos largos.
O tempo de vida do ser humano pode transcender a mensuração limitada das horas, dos dias e dos anos definida entre o instante do nascimento e o da transição para a morte. Essa ampliação do tempo é uma conseqüência da vida mental, a verdadeira. Pode-se viver muito ou pouco, dependendo dos conhecimentos que se tenha.
Os tempos de evolução caracterizam-se pelo esforço continuado na busca do conhecimento e no desenvolvimento da consciência. Para aproveitar o tempo é necessário aprender a pensar, produzir soluções para os problemas diários.Administrá-lo bem significa acumulá-lo dentro de si; ser consciente do que se viveu e ter um plano para a vida futura; domínio sobre si e um objetivo definido; todos os atos e pensamentos imantados para uma finalidade que abarque o aperfeiçoamento da espécie humana; significa encarar a vida como um grande campo experimental de aprendizado e realização.
Em um brilhante artigo escrito na década de quarenta, o pensador e educador González Pecotche dizia que " a lei do tempo é, como todas as leis universais, justa e exata; e é lei porque fixa, sem distinção, normas e regras inexoráveis. Assim demonstra o fato de que o tempo perdido não pode mais ser utilizado; é como um pedaço de vida que se desperdiça e não pode mais ser incorporado a ela."
E numa conferência pronunciada em Córdoba em 1949," muitos momentos do dia passam em branco porque a mente, distraída por completo, se submerge na penumbra. Como é natural, estes trechos de tempo são pedaços de vida que se vão, por não se experimentar no curso dos mesmos a sensação de existir. "
O tempo é como a água, um bem precioso que só se dá conta de seu valor quando falta, por ter sido mal empregue, desperdiçado.
A rotina, a distração, as divagações e os rancores são inimigos do tempo por impedir que o homem pense, crie e construa um destino melhorado.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
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Wednesday, January 26, 2011

A Morte Não Existe

É possível que o temor da morte provenha do fato de se pensar que tudo termine com a vida. A morte verdadeira é o não pensar, uma tirania que aprisiona a inteligência, uma escravidão mental.
Como sentir a eternidade dentro de si?
Não estamos morrendo todas as noites para despertar no dia seguinte?
Na Comédia de Dante, diz o poeta: “O pior dos suplícios é sentir-se morto sem acabar de morrer, é sentir-se quase vivo estando morto, e ansiando morrer, seguir vivendo”.
A morte tem a ver com a falta de estímulos, de interesse e esperança.
O essencial é a atividade, o movimento, o equilíbrio. É necessário abandonar a inércia e a desesperança, construir um novo futuro, ressurgir das cinzas como o pássaro imortal, uma verdadeira ressurreição que a lenda de Lázaro não pode explicar.
Por que o espírito humano busca o conhecimento e o aperfeiçoamento? Por que busca o acercamento com Deus?
A liberdade do homem é construída sobre o pensar. Quanto mais pensar, mais livre será. Mas o que é pensar? Esta movimentação discricionária de pensamentos na mente seria pensar? Não, isso não é pensar, criar soluções luminosas, optar por caminhos, selecionar o que convém para o bem e felicidade próprios e alheios.
Ao pensar, opomo-nos à fatalidade e liberamo-nos do destino comum, da mediocridade. Trata-se de opor à fatalidade um destino construído pela pessoa, que será viável através do conhecimento, do domínio dos pensamentos. Todos têm o privilégio de mudar o destino, apesar de não poder modificar o desígnio que lhes dá um tempo de vida neste planeta. A cada decisão que se toma, o futuro está sendo alterado. A fatalidade e o predeterminismo não existem para quem use sua inteligência para construir o futuro. Não é a fatalidade que leva o desatento a acidentar-se, o esquecido a envolver-se em inúmeros problemas, o irascível a atrair sobre si a violência dos que não o suportam. O destino pode ser modificado por quem compreende que deve se transformar para construir uma vida melhor, pois existe para o ser humano o livre arbítrio, a liberdade interior por optar sobre o que quer pensar, fazer, realizar. Assim se poderá escapar da fatalidade.
Qualquer obstáculo pode ser transformado em instrumento de aperfeiçoamento pessoal através da utilização da inteligência. Um defeito que nos incomoda poderá mover-nos para combatê-lo, extirpá-lo. Mudando, poderemos construir um novo destino. Nenhuma idéia diferente ou oposta à do aperfeiçoamento poderá nos impulsionar para a construção de uma vida mais feliz.
Um dos preceitos gravados no Templo de Delfos era o “Conhece a ti Mesmo”. Platão diz através de Sócrates - personagem de um de seus escritos - que “parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha a examinar coisas que não me dizem respeito. Não são as fábulas que investigo; é a mim mesmo”.
Esse conhecimento implica conhecer os defeitos pessoais; é muito comum censurarmos os dos outros. Ao evitar, em nós, os que censuramos, estaríamos realizando uma pequena parte daquele conhecimento inscrito no templo grego.
Assim como a fome e a sede são sinais de nosso organismo indicando que precisamos nos alimentar, os defeitos são sinais de que nosso organismo psicológico nos dá indicando que devemos mudar. E o nome dessas mudanças é educação espiritual; construção de uma nova conduta que deverá nos ocupar diariamente, da mesma forma como dormimos e nos alimentamos, para não cair na inanição mental, na indigência espiritual.
Há também muitos preconceitos que precisam ser eliminados e que nos têm influenciado fortemente. O primeiro deles é o que diz que não podemos mudar, que tudo está escrito, que a vida é um vale de sofrimentos, que não somos ninguém, que o ser humano não tem conserto, que alguém virá para nos salvar e resolver por nós o que não conseguimos.
Ao vencer tais preconceitos e assumir as rédeas do destino, opomo-nos ao comum e á fatalidade que não existe para quem lute por pensar com liberdade e construir o próprio futuro.


Nagib Anderáos Neto
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Preconceitos e Conceitos Mumificados

Consta que Einstein teria escrito ser mais fácil destruir o átomo do que um preconceito.
O que é um preconceito? Seria um conceito mumificado que não evoluiu no tempo?
Acreditar que o futuro está escrito, que não poderemos criar nosso destino, é um exemplo eloquente de um preconceito.
Quem estuda e se esforça por melhorar suas condições intelectuais e materias está criando um novo futuro, transformando o destino comum ao qual estarão sujeitos os que não se esforçam por melhorar as suas vidas.O destino está escrito para os que acreditam nessa predestinação, os inertes, encostados.
A única certeza que se tem sobre o futuro é que um dia se vai morrer, por ser o cumprimento de uma lei. Se se quer dizer que isso está escrito, que seja.Mas entre o dia do nascimenrto e o do desenlace final, todos os outros serão nossos, e poderemos optar por ser seus construtores ou espectadores passivos de um drama individual.
Um outro preconceito muito ligado ao anterior é que não poderemos mudar a nossa maneira de sentir e pensar, quando a vida deveria ser feita de mudanças; sem elas não há melhorias, evolução.
É um preconceito achar-se superior aos demais, como
também inferior. Não adianta compararmo-nos com os outros; o
importante é estar sempre a observar a própria conduta com o intuito de melhorá-la. Os outros devem ser para nós exemplos do que poderemos chegar a ser ou do que não deveremos ser.
E os dois maiores preconceitos que têm impedido a efetiva evolução da espécie humana : Deus é matéria de crença ou não existe. Preconceitos que se fundem por impedir que o homem empreenda na vida uma trajetória de aprendizado que lhe permita descobrir o motivo de sua existência no planeta.
A crença na inexistência é a mesma que a da existência de Deus; são atitudes passivas diante de uma realidade que deveria ser investigada, estudada. E como todo o conceito, deveria ser analisado e passível de aperfeiçoamento para que não se transforme num preconceito que deveria ser substituído por firmes convicções alicerçadas na realidade e confirmadas pela inteligência ativa capaz de examiná-las através da observação que haverá de estar sempre a aperfeiçoá-las.
Conceitos mumificados transformam-se em preconceitos.

Nagib Anderáos Neto
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Friday, November 12, 2010

Deus e a Consciência

Melhor que dar o peixe ou ensinar a pescar é ensinar a pensar. Mas antes de fazê-lo, será necessário aprendê-lo. Pensar é um ato de liberdade, um aprendizado espiritual que exige saber julgar-se, querer melhorar, sentir a necessidade de evoluir, realizar. E pensar no quê? Em Deus, em si mesmo e nos semelhantes, ensina González Pecotche, o pensador que dedicou sua vida ao culto da nobre função que as crenças e os preconceitos impedem realizar.
Deus se confunde com o homem, com todos os homens, sem nenhum privilégio ou intermediário. Está presente no templo interior que existe no coração de todos e que se chama consciência, a que deveria reger todos os atos humanos, o Deus interior, a bela adormecida que ali jaz prostrada sob as sombras do ceticismo, da ignorância, das crenças e dos preconceitos.
O homem nasceu para pensar e não apenas para trabalhar, se divertir e se conformar com a entristecida vida rotineira dos que imaginam que a felicidade se resume na posse de coisas que perdem o seu valor quando conquistadas.
O principio do processo de liberação espiritual pelo pensar resume-se no reconhecimento das próprias limitações e na identificação dos preconceitos e crenças que aprisionam a inteligência nas masmorras da ignorância. E a maior ignorância é ignorar-se, não se ver, desconhecer-se. Mesmo o mais letrado, o mais culto, pode ser um ausente de si, de sua consciência.
Mais do que o axiomático ”conhece-te a ti mesmo” do ilustre personagem mencionado por Platão em seus diálogos, sobressai-se o “tudo o que sei é que nada sei”, principio de todo o processo de liberação pelo pensar.
Se não me conheço, desconheço minha capacidade de criar. Se não sou um pequeno criador, não posso sentir e compreender o grande Criador.
Todo o ser humano pode ser um criador, mesmo não sendo artista, e compreender melhor o Grande Criador, o Deus único, tão distante do materializado homem moderno. E a maior obra de arte que um ser humano poderia realizar seria a de criar a sua pessoa tornando-se um indivíduo melhor, em constante aperfeiçoamento; essa sim seria a obra-prima, a maior obra de arte, a única que poderia merecer tal classificação.
Deus não está nas alturas, nos livros, nos templos ou nas desgraças; nem nas pestes ou doenças incuráveis. Ele não traz o tom pesado e vingativo; não pune, não castiga, não deprime; ensina, reconforta e traz esperança. Está num sorriso infantil, na emoção de uma descoberta, num instante de reflexão, na generosidade de quem ensina. Maior que tudo quanto existe, que o mesmo Universo, tem em cada coração um pequeno templo despojado do ouropel e da pompa, do ar pesado da intolerância e da incompreensão. Para penetrar em seu interior, muitas vezes inacessível à pretensão e à ignorância, é exigido que se desvencilhe da pesada carga de preconceitos, da incompreensão e dos defeitos que vêm dominando a mente humana, impedindo-lhe de contemplar a Verdade pela névoa da ignorância que tem cegado o seu entendimento.
Um homem afastado de si e dos semelhantes é desatento, distraído de Deus, inconsciente.

Nagib Anderáos Neto.

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Wednesday, May 26, 2010

A Fatalidade Não Existe

É possível que o temor da morte provenha do fato de se pensar que tudo termina com a vida. A morte verdadeira é o não pensar, uma tirania que aprisiona a inteligência, uma escravidão mental.
Como sentir a eternidade dentro de si?
Não estamos morrendo todas as noites para despertar no dia seguinte?
Na Comédia de Dante, diz o poeta: “O pior dos suplícios é sentir-se morto sem acabar de morrer, é sentir-se quase vivo estando morto, e ansiando morrer, seguir vivendo”.
A morte tem a ver com a falta de estímulos, de interesse e esperança.
O essencial é a atividade, o movimento, o equilíbrio. É necessário abandonar a inércia e a desesperança, construir um novo futuro, ressurgir das cinzas como o pássaro imortal, uma verdadeira ressurreição que a lenda de Lázaro não pode explicar.
Por que o espírito humano busca o conhecimento e o aperfeiçoamento? Por que busca o acercamento com Deus?
A liberdade do homem é construída sobre o pensar. Quanto mais pensar, mais livre será. Mas o que é pensar? Esta movimentação discricionária de pensamentos na mente seria pensar? Não, isso não é pensar, criar soluções luminosas, optar por caminhos, selecionar o que convém para o bem e felicidade próprios e alheios.
Ao pensar, opomo-nos à fatalidade e liberamo-nos do destino comum, da mediocridade. Trata-se de opor à fatalidade um destino construído pela pessoa, que será viável através do conhecimento, do domínio dos pensamentos. Todos têm o privilégio de mudar o destino, apesar de não poder modificar o desígnio que lhes dá um tempo de vida neste planeta. A cada decisão que se toma, o futuro está sendo alterado. A fatalidade e o predeterminismo não existem para quem use sua inteligência para construir o futuro. Não é a fatalidade que leva o desatento a acidentar-se, o esquecido a envolver-se em inúmeros problemas, o irascível a atrair sobre si a violência dos que não o suportam. O destino pode ser modificado por quem compreende que deve se transformar para construir uma vida melhor, pois existe para o ser humano o livre arbítrio, a liberdade interior por optar sobre o que quer pensar, fazer, realizar. Assim se poderá escapar da fatalidade.
Qualquer obstáculo pode ser transformado em instrumento de aperfeiçoamento pessoal através da utilização da inteligência. Um defeito que nos incomoda poderá mover-nos para combatê-lo, extirpá-lo. Mudando, poderemos construir um novo destino. Nenhuma idéia diferente ou oposta à do aperfeiçoamento poderá nos impulsionar para a construção de uma vida mais feliz.
Um dos preceitos gravados no Templo de Delfos era o “Conhece a ti Mesmo”. Platão diz através de Sócrates - personagem de um de seus escritos que “parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha a examinar coisas que não me dizem respeito.Não são as fábulas que investigo; é a mim mesmo”.
Esse conhecimento implica conhecer os defeitos pessoais; é muito comum censurarmos os dos outros. Ao evitar, em nós, os que censuramos, estaríamos realizando uma pequena parte daquele conhecimento inscrito no templo grego.
Assim como a fome e a sede são sinais de nosso organismo indicando que precisamos nos alimentar, os defeitos são sinais de que nosso organismo psicológico nos dá indicando que devemos mudar. E o nome dessas mudanças é educação espiritual; construção de uma nova conduta que deverá nos ocupar diariamente, da mesma forma como dormimos e nos alimentamos, para não cair na inanição mental, na indigência espiritual.
Há também muitos preconceitos que precisam ser eliminados e que nos têm influenciado fortemente. O primeiro deles é o que diz que não podemos mudar, que tudo está escrito, que a vida é uma vale de sofrimentos, que não somos ninguém, que o ser humano não tem conserto, que alguém virá para nos salvar e resolver por nós o que não conseguimos.
Ao vencer tais preconceitos e assumir as rédeas do destino, opomo-nos ao comum e á fatalidade que não existe para quem lute por pensar com liberdade e construir o próprio futuro.


Nagib Anderáos Neto
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Tuesday, October 31, 2006

Por Uma Nova Educação

Educar deveria significar conduzir, guiar, ao invés de impor, inculcar; muito mais amplo do que definir, colocar limites. Não é conveniente encarcerar conceitos em definições estáticas e transmiti-los friamente aos educandos como coisas mortas, folhas murchas com as quais se marca as páginas da própria história.
Um novo método pedagógico deveria orientar e guiar os jovens através de um caminho que os conduzisse para encontrar dentro de si as suas capacidades e desenvolvê-las. Tudo o que é imposto é frio, dogmático, sem vida. Tudo o que é proposto, sugerido, com o intuito de guiar a reflexão e a inteligência do educando para que chegue, por própria conta, aos conhecimentos e às mudanças que devem operar-se no indivíduo, traz a vida e a alegria que a Natureza nos ensina em sua constante transformação.
Enclausurar Deus, por exemplo, numa definição, resultaria pequeno, muito pequeno; não basta senti-lo, mas aproximar-se dele através do conhecimento do que nos cerca e, especialmente, do que somos e podemos chegar a ser.
“A Sabedoria de Deus está plasmada na Criação, enquanto que a do homem consiste em conhecê-la e servir-se dela para superar as etapas evolutivas de seu gênero”, escreveu o pensador C. B. González Pecotche.
Não se trata de receber definições e enclausurá-las em frios compartimentos mentais, senão conhecer os conceitos e experimentá-los através da compensatória tarefa da transformação pessoal. E conclui o pensador que o homem busca o conhecimento “porque é o meio pelo qual chega a compreender a sua missão e a sentir a presença em sua vida deste ser imaterial que responde ao influxo da eterna Consciência Universal e é portador, através dos tempos, da existência individual.”
Portanto, o conhecimento move o homem para que se eleve, para que deixe de ser o que é para ser algo melhor; e é o grande agente criador das possibilidades humanas.
As frias definições afastam o ser humano da verdade, enquanto que o conhecimento amplia os horizontes aproximando o homem de si mesmo, de seus semelhantes e de Deus.
Uma nova Pedagogia requer a reeducação dos adultos que terão a seu cargo a instrução da humanidade do futuro. O que tem sido prática corrente na educação infantil deverá ser revisto, estudado novamente. Os sistemas de instrução e os conceitos básicos empregues não têm funcionado convenientemente. Instrui-se para tudo; menos para o que mais interessa: a convivência pacífica entre os seres humanos.
A humanidade está dividida em raças, religiões, camadas sociais, culturais, partidos políticos, etc. Os sistemas pedagógicos são divisionais, separatistas. Cada agrupamento arvora-se como dono absoluto da Verdade única. Não compreende que ela surge da união dos homens pela compreensão de sua realidade fragmentada da Grande Realidade Universal da qual todos formam parte.
Às crianças ensina-se, por exemplo, e equivocadamente, que devem ser as melhores em tudo o que fazem; melhores que as outras. Inocula-se assim, desde muito pequenas, o nocivo e maligno vírus do separatismo, de uma pseudo-superioridade; a ilusão da felicidade alcançada quando se chegar a ser mais e melhor do que os outros. O melhor da classe,no esporte, o melhor profissional, o mais admirado.
Na Pedagogia da Escola do Futuro, as crianças serão instruídas no sentido de serem melhores que elas mesmas; que o aperfeiçoamento pessoal tenha um cunho essencialmente humanista: ser melhor sendo mais útil para si mesmo e para os semelhantes; para conviver harmonicamente com.
O amor ao próximo deixará de ser uma figura de retórica para representar a compreensão cabal de um fragmento da Grande Verdade e, como tal, será vivenciado, experimentado, e não apenas discursado e propalado.
Sem o entendimento não há compreensão. Sem compreensão não há realização. Sem realização, os seres humanos seguirão inimigos de si mesmos; filhos deserdados de um Criador que não chegaram a compreender.
Muitos educadores preferem a verdade à fantasia na orientação da infância e da adolescência. Compreendem que de tanto ouvir e transmitir fantasias e coisas irreais, a vida pode se transformar numa grande mentira.
Alguém diria a uma criança que a Terra não se move e que é o centro do Universo? Ou que os trovões existem porque os deuses estão empurrando móveis no Olimpo?
Na infância da humanidade os homens acreditavam nessas e noutras fantasias por ignorância, falta de conhecimento. Galileu Galilei, o grande cientista italiano, quase foi queimado na fogueira por sustentar que a Terra não era o centro do Universo. Salvou-se porque abjurou, negou a verdade que havia vislumbrado para não ser condenado.
Infelizmente, a grande maioria dos educadores acha louvável a fantasia, a ilusão e o irreal nas histórias que transmitem às crianças: animais que falam, super-heróis que voam, desenhos animados que deseducam e transmitem a violência às crianças que depois, quando adultas, não entendem o porquê das crueldades e da violência que imperam no mundo.
A criança cria suas fantasias porque em sua inteligência incipiente só funcionam a memória e a imaginação e seu entendimento ainda não despertou para que compreenda o mundo com suas belezas e maldades criadas pelo homem. Não é necessário que os adultos lhe venham acrescentar ilusões e mentiras que nada têm a ver com a realidade, e sim que a protejam de certas realidades cruéis deste mundo que não suportaria defrontar por não estar preparada para entender.
Conta-se que havia um pai muito cruel, de péssimo caráter, e que a zelosa mãe não deixava que seus pequenos filhos soubessem dessa realidade. Quando falava dele para os meninos, nunca deixava transparecer aquela realidade por compreender que eles deveriam crescer para poder, por própria conta, ter a capacidade de julgar o pai.
Proteger o entendimento e a sensibilidade de uma criança faz parte de uma docência positiva que afasta a criança do sofrimento pelo choque prematuro com a realidade. Da mesma forma, o seu entendimento deve ser preservado da mentira, do irreal e da ficção para que possa despertar, no futuro, livre de preconceitos, temores e da depressão.
Educar para a vida é muito mais do que dar escola gratuita e ensino fundamental; é preparar os entendimentos para que despertem do sono milenar que tem submergido a humanidade na inércia mental e prostrados os espíritos nos cárceres da ignorância.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com
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Liberdade Pelo Pensamento

É possível que o temor da morte provenha do fato de se pensar que tudo termina com a vida.
A morte verdadeira é o não pensar, uma tirania que aprisiona a inteligência, uma escravidão mental.
Como sentir a eternidade dentro de si?
Não estamos morrendo todas as noites para despertar no dia seguinte?
Na Comédia de Dante, diz o poeta: “O pior dos suplícios é sentir-se morto sem acabar de morrer, é sentir-se quase vivo estando morto, e ansiando morrer, seguir vivendo”.
A morte tem a ver com a falta de estímulos, de interesse e esperança pelo futuro.
O essencial é a atividade, o movimento, o equilíbrio. É necessário abandonar a inércia e a desesperança, construir um novo futuro e um passado, ressurgir das cinzas como o pássaro imortal, uma verdadeira ressurreição que a lenda de Lázaro não pôde explicar.
Por que o espírito humano busca o conhecimento e o aperfeiçoamento? Por que busca o acercamento com Deus?
A liberdade do homem é construída sobre o pensar. Quanto mais pensar, mais livre será. Mas o que é pensar? A movimentação discricionária de pensamentos na mente seria pensar? Não, isso não é criar soluções luminosas, optar por caminhos, selecionar o que convém para o bem e felicidade próprios e alheios.
Ao pensar, opomo-nos à fatalidade e liberamo-nos do destino comum, da vida comum, da mediocridade.Trata-se de opor à fatalidade um destino próprio, construído pela pessoa, que será viável através do conhecimento, do domínio dos pensamentos.
Qualquer obstáculo pode ser transformado em instrumento de aperfeiçoamento pessoal através da utilização da inteligência. Um defeito pessoal que nos incomoda poderá mover-nos para combatê-lo, extirpá-lo, para mudar. E mudando poderemos ir construindo um novo futuro, um novo destino. Nenhuma idéia diferente ou oposta à do aperfeiçoamento poderá nos impulsionar para a construção de uma vida mais ampla e feliz.
Um dos preceitos gravados no Templo de Delfos era o “Conhece a ti Mesmo”. Platão diz através de Sócrates - personagem de um de seus escritos -: “Parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha a examinar coisas que não me dizem respeito... Não são as fábulas que investigo; é a mim mesmo”.
Esse conhecimento implica conhecer os defeitos pessoais. É muito comum censurarmos os dos outros. Ao evitar, em nós, os que censuramos, estaríamos realizando uma pequena parte daquele Conhecimento inscrito no Templo grego.
Assim como a fome e a sede são sinais de nosso organismo indicando que precisamos nos alimentar, nossos defeitos são sinais que nosso organismo psicológico nos dá indicando que devemos mudar. E o nome dessas mudanças é “educação espiritual”; construção de uma nova conduta que deverá nos ocupar diariamente, da mesma forma como dormimos e nos alimentamos, para não cair na inanição mental, na indigência espiritual.
Para González Pecothe, o criador da Logosofia, “o quadro das deficiências que a criatura humana apresenta, desde que nasce até o final de seus dias, poderia parecer desalentador. Todavia, isso não deve abater o seu ânimo, porquanto é preferível conhecer que inimigos temos dentro, para combatê-los com lucidez mental, a ignorá-los, enquanto ficamos à mercê de sua influência despótica, suportando docilmente a maioria dos desgostos e depressões que diariamente ocasionam”.

Nagib Anderáos Neto

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