Wednesday, April 17, 2013

A Intolerância

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A Intolerância


Giordano Bruno - o pensador italiano que foi queimado vivo na Idade Média por ter defendido a idéia da infinitude do Universo e de sua transformação contínua - é um exemplo eloquente do obscurantismo e da intolerância daquela época quando todos deveriam prestar aceitação cega às “verdades” estabelecidas.

Algum tempo depois, Galileo Galilei (1564 - 1642) teve de abjurar para não ter o trágico fim do compatriota. Ele defendia a idéia, absurda para a época, de que a Terra não era o centro do Universo. Embora tendo escapado à morte, teve de conviver com uma prisão domiciliar até o final de seus dias.

Spinoza, como Sócrates, foi condenado pelo poder político local por opor-se às idéias dos dirigentes, por não cultuar as suas personalidades e nem as divindades do Estado, por afirmar que a verdadeira salvação consistiria no conhecimento que é oposto ao fenomênico e sobrenatural que forjam as bases do ateísmo. Para ele, não poderia haver um Deus ou um conhecimento propriedades de algum agrupamento porque Deus e o conhecimento não são contingentes e nem privilégio de ninguém, por serem imanentes.

Estas páginas trágicas de nossa história servem para uma reflexão sobre a intolerância e suas conseqüências, pois ela continua tão presente como naqueles negros dias medievais.

Dentre os defeitos ou deficiências psicológicas do ser humano, a intolerância é a que mais dificulta a convivência. E essa dificuldade, a de conviver, é um grande obstáculo para a evolução humana que necessitará do concurso inestimável de seu semelhante na jornada de aperfeiçoamento que deverá empreender durante a sua vida; se não sabe conviver, terá a sua evolução limitada.

A intolerância implica  falta de respeito às idéias alheias,  inflexibilidade,  dureza de juízo.

É difícil aceitar as idéias de outras pessoas quando não coincidem com as nossas; isto porque fomos educados nessa rigidez comportamental que nos impede compreender que podem existir idéias que difiram das nossas e os que as defendam não são, necessariamente, nossos inimigos.

A intolerância leva o ser humano a não admitir oposição. O intolerante vê no opositor um inimigo sem aperceber-se que a oposição pode ser construtiva, pois nos faz pensar, refletir sobre nossos pontos de vista e concluir, algumas vezes, que podemos estar errados. Os ditadores não admitem oposição. O opositor deve ser afastado, eliminado; só assim o ditador sente-se confortável.

Os que impõem, os impostores, estão aí, como naqueles negros dias medievais; nos governos, nas empresas, em instituições diversas, nas mentes dos seres humanos, pensamentos retrógrados que nos encarceram numa rigidez milenar e que têm afastado o ser humano de si mesmo e de seus semelhantes. Surpreender esta realidade em si  e trabalhar para eliminar esse tipo de pensamento é o único caminho capaz de livrar-nos desse obscurantismol.

Educar as crianças no sentido da flexibilidade psicológica, desde que as idéias antagônicas não firam os princípios básicos da harmônica convivência , significa incutir no educando a tolerância que lhe permitirá respeitar o seu semelhante e ser respeitado.


NAGIB ANDERÁOS NETO
neto.nagib@gmail.com


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Friday, September 18, 2009

Sócrates e a Busca da Sabedoria

Sócrates era visto como um corruptor perigoso da juventude. A todos exortava a que não se preocupassem tanto com as coisas materiais, senão com a alma; que se tornassem pessoas boas. Um sábio que dizia nada saber e que poderia ter sido um ponto de inflexão cultural e dos costumes, mas não o foi. Tomou da cicuta cumprindo o destino que lhe fora imposto pelos juízes e políticos para os quais um povo que pensasse não seria conveniente. Quando o filósofo disse ser imortal, quis, talvez, significar que seus pensamentos e idéias sobreviveriam à morte e seguiriam pelos séculos como fachos luminosos para as inteligências que se decidissem por pensar.

Para o filósofo grego, nada mais interessava que a Verdade e a Justiça; por tal postura foi condenado pelo Estado decadente.

Para seu discípulo Platão, as virtudes seriam arquétipos que o ser humano traz consigo ao nascer (contrariamente à idéia de pecado original colocada séculos depois na cultura ocidental), mas que, misteriosamente, ficariam aprisionadas no ser humano, esperando a liberação de seu mutismo. Haveria no Universo um impulso natural para a perfeição; os arquétipos estariam no mundo metafísico revestidos de profunda realidade e permanência. Os seres seriam transitórios, os arquétipos permanentes. O homem existira antes de sua existência temporal como arquétipo.

Aristóteles, herdeiro do pensamento de ambos, afirmara que a Natureza é um processo de autorrealização e autoaperfeiçoamento. O homem tem de transformar-se em Homem (humanismo). O que distinguiria o homem do animal seria a razão. O sentido da existência, o conhecimento. “Tudo da Natureza traz algo de divino em si.” A divindade é imanente à Natureza e não exterior a ela.

“Não se deve escutar a advertência daqueles que dizem que o homem deve pensar apenas no humano, o mortal apenas no mortal: antes, devemos empenhar-nos, tanto quanto o possível, em ser imortais.”

Interessante observar como os três pensadores se confundem num só,complementam-se. Sabe-se que Sócrates nada deixou escrito; todas as referências provêm de Platão, seu discípulo. E essas idéias atravessaram séculos de obscurantismo espiritual. E as palavras atribuídas a ele ao término de sua defesa viajaram no tempo como um misterioso sinal a ser decifrado: “É chegada a hora de partir: a mim, para morrer; a vós, para viver. Quem de nós enfrentará o melhor destino é desconhecido de todos, exceto de Deus.”

Existe um paralelismo entre o pensamento de Spinoza e o de Sócrates que diziam que o homem não era o compacto, o tocável, senão o invisível, o da essência. Afirmavam que ele tinha em seu interior tudo para se desenvolver; que deveria primeiro conhecer-se, e depois o que o cercava; que o princípio da sabedoria consistiria no reconhecimento da própria ignorância. Ambos foram condenados pelo poder político, por opor-se às idéias dos governantes e não cultuar suas personalidades, e nem as divindades do Estado.

Apesar de ter a oportunidade de fugir, o filósofo grego não o fez. "Sócrates é imortal. Podem matar o invólucro de Sócrates, mas Sócrates é imortal." E, segundo Platão, enfrentou a morte com serenidade. Talvez por ter compreendido que a morte verdadeira fosse o não pensar, a submissão aos pensamentos pensados por outras pessoas e à cruel ditadura dos mercadores da verdade.

Embora estes filósofos, como tantos outros que os sucederam, tivessem intuído um caminho e um conhecimento que transcendesse o dia-a-dia rotineiro de uma vida materializada e vazia, não conseguiram vislumbrá-lo com clareza nem trilhá-lo, para que pudessem depois ensinar às gerações que lhes sucederiam. Deixaram marcos, avisos, alertas que não foram tomados em conta, e a humanidade mergulhou nos fanatismos de toda a espécie, sejam políticos ou religiosos, sempre muito próximos, e que têm distanciado a humanidade da verdade, que a tem separado em ideologias, raças, religiões, partidos políticos.

O que significa afinal preocupar-se com a alma? Como se tornar uma pessoa boa sem ser ingênua? O que é a verdade e a justiça? Como aperfeiçoar-se e transformar-se em Homem atingindo a imortalidade?

Cada ser humano haverá de buscar as respostas por si mesmo, pois as que foram entregues prontas não são mais que o pão amanhecido e duro da tergiversação;respostas prontas imobilizam a inteligência e são formas padronizadas que impedem o movimento e a evolução.

Ao invés de procurar o elo perdido nos primatas, o homem do futuro haverá de buscá-lo em si mesmo, no seu coração e na sua consciência, na prerrogativa evolutiva que lhe foi dada neste sentido pelo Deus único que os céticos chamam de acaso, e cuja face visível é o Universo, e a invisível as suas leis que podem ir sendo conhecidas pelo homem em evolução.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br
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