Thursday, March 29, 2012

Espinosa

Visto por muitos de seus conterrâneos como inimigo da Igreja e do Estado, Espinosa foi combatido e ofendido em não poucas obras de sua época por ilustres pensadores como Voltaire e Leibniz, embora tivesse admiradores não menos importantes como Goethe e Herder. Transitou entre o maldito e o bendito (Baruck) que carregava no nome.
Ele nasceu em 1632 em Amsterdã numa família judia vinda de Portugal por causa da Inquisição. A comunidade judaica não o aceitava por criticar as contradições do Antigo Testamento. Foi perseguido, expulso e amaldiçoado pela sinagoga. Para sobreviver, fabricava cristais de lentes. Lutou por defender a liberdade de pensamento, pois a falta dela criaria a corrupção, a falsidade e a hipocrisia.
Morreu solitário aos 44 anos sem que o mundo conhecesse suas obras mais importantes. A solidão, o anonimato e a coleção de inimigos foram suas marcas na curta trajetória neste pequeno planeta.
Como bem disse Novalis, “Espinosa é um homem ébrio de Deus”. Diferentemente de Descartes, para ele a filosofia começava com Deus, enquanto que para o francês, a certeza de Deus vinha da certeza de si mesmo.
“Não podemos estar mais seguros da existência de nenhuma coisa que a do ser absolutamente infinito e perfeito, ou seja, Deus. Como sua natureza exclui toda imperfeição, elimina, desse modo, todos os motivos para duvidar de sua existência e proporciona a maior certeza sobre ele”, escreveu.
É um Deus diverso do ortodoxismo judeu e cristão, pois para Espinosa o homem é um pensamento de Deus que é tudo e está em tudo.
Se Deus está em tudo e não pode ser revelado por nenhum profeta ou mensageiro, fica então entendido porque o filósofo foi considerado um inimigo pelas religiões constituídas.
Para ele, Deus é razão (logos), como também coração, amor; a fusão da suprema razão com o supremo amor. Difundiu ser importante que a Verdade fosse experimentada, e não somente estudada, pois ai surgiria a compreensão do amor. Em sua ética encontramos a questão da liberdade e do livre arbítrio como algo a ser conquistado; quanto maior liberdade, maior responsabilidade, que muito teria a ver com o grau de consciência.
Existe um paralelismo entre o pensamento de Spinoza e o de Sócrates que dizia que o homem não era o compacto, o tocável, senão o invisível, o da essência. Afirmava que todo o ser humano tinha em seu interior tudo para se desenvolver; que deveria primeiro conhecer-se, e depois o que o cercava; que o princípio da sabedoria consistiria no reconhecimento da própria ignorância.Ambos foram condenados pelo poder político, por opor-se às idéias dos governantes e não cultuar suas personalidades, e nem as divindades do Estado.
Apesar de ter a oportunidade de fugir, o filósofo grego não o fez. "Sócrates é imortal. Podem matar o invólucro de Sócrates, mas Sócrates é imortal." E, segundo Platão, enfrentou a morte com serenidade. Talvez por ter compreendido que a morte verdadeira fosse o não pensar, a submissão aos pensamentos pensados por outras pessoas e à cruel ditadura dos mercadores da verdade.
Para Spinoza, a verdadeira salvação consistiria no conhecimento que é oposto ao fenomênico e sobrenatural que forjam as bases do ateísmo. Afirmava que as religiões sobreviveram através de dogmas rígidos.
Olhar as coisas sob a perspectiva da eternidade era uma das principais bases de seu pensamento. Deus é tudo, e tudo é Deus. Pensar em si mesmo é pensar em Deus, e não uma forma de egoísmo. A substância essencial que tudo interpenetra é Deus que tudo rege e se confunde com suas leis que podem ser conhecidas.
De qualquer forma, apesar do avanço conceitual e do distanciamento dos preconceitos vigentes, Espinosa não foi capaz de vislumbrar a forma de se realizar o contato consciente com estas realidades, e nem como empreender um processo de aperfeiçoamento individual.Mais intuitivo que objetivo, racional, deixou um legado importante para o pensamento das gerações que o sucederam.

Nagib Anderáos Neto
www.twitter.com/anderaosnagib

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Thursday, February 18, 2010

Condorcet: Um Mestre Revolucionário

“Sob a mais livre das constituições, um povo ignorante é sempre escravo”, escreveu o inspirado francês Marie-Jean-Antoine-Nicolas Caritas Condorcet.
Literato, filósofo, economista, matemático e político, ele sucumbiu numa prisão parisiense no ano de 1794 nas mãos dos terríveis jacobinos liderados por Robespierre, depois de ter colaborado ativamente naquele movimento revolucionário que pretendia acabar com os desmandos de uma monarquia abusiva, mas acabou tornando-se o primeiro grande movimento terrorista de que se tem noticia. “A arma da Revolução é o terror”, afirmava Robespierre transformado em personagem na “Morte de Danton” do escritor George Buchner. Possivelmente ele tenha sido o pai de todos os terroristas e a Revolução Francesa o berço dos indignados que imaginam que o terror e a violência possam resolver as desavenças que a inteligência e a sensibilidade humanas não souberam conciliar; e o inspirado Marquês de Condorcet uma das mais ilustres vitimas do terror naquele tempo.
Condorcet concebia a possibilidade do aperfeiçoamento humano e foi contagiado pelo otimismo e pela indignação de Voltaire contra os impostores e ditadores, e de quem foi editor. Em “Esboço de Um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano”, sua visão otimista fica muito evidente, contrapondo-se ao pessimismo de alguns pensadores da época. Foi vítima do Terror por contrapor-se à hegemonia ditatorial dos jacobinos - impostores de estreitas luzes que até hoje têm assento em muitas instituições-que não admitiam oposição de nenhuma espécie e se refestelavam no poder indefinidamente. Considerava que o desenvolvimento humano não poderia coexistir com os preconceitos e as crenças, pois estaria alicerçado na liberdade de pensar; que o progresso coletivo dependia do progresso dos indivíduos, material e espiritualmente falando.
Condorcet idealizou a escola pública na França que foi modelo para todo o mundo; defendeu as liberdades da mulher, as aposentadorias e pensões, o combate às guerras, o controle inteligente da natalidade.
Com tantas idéias, tanta vontade de viver, tanto otimismo, morreu solitário nos porões do terror sufocado pelo ódio dos poderosos para os quais tudo se resume no poder, na riqueza e no jogo de seus mesquinhos interesses.
O que os impostores e os ditadores não compreendem é que os pensamentos criados pelos Condorcet sobreviverão e chegarão à mente de muitas pessoas no futuro, transportando os ideais de progresso e aperfeiçoamento humanos através do fomento ao estudo, à educação, e que nenhuma violência conseguirá calá-los. Os homens e os povos do futuro poderão, então, liberar-se das amarras seculares que engendram os ódios, os rancores e as guerras.
A humanidade deve muito ao Marquês de Condorcet e haverá de honrar a sua memória comungando com os nobres ideais que inspiraram a sua vida.

Nagib Anderáos Neto
neto.nagib@gmail.com

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Tuesday, February 09, 2010

Cem Anos Com Machado de Assis

Na madrugada de 29 de Setembro de 1908, lúcido e recusando a presença de um padre, morreu Machado de Assis. Nascido aos 21 dias de Junho de 1839, numa parte suja da cidade do Rio de Janeiro, meio escravo, tornou-se um dos maiores escritores da amada língua portuguesa. Afeito à reflexão, ironizou a bondade dos brancos à época da abolição e também o advento republicano.
Sua morte lembra a de Voltaire. Ambos anticlericais, exímios escritores, conhecedores profundos da psicologia humana, críticos ímpares da sociedade e dos costumes, defensores da cultura e da liberdade, da literatura e da filosofia, lutaram bravamente contra as ervas-daninhas que entorpecem o solo mental e impedem o florescimento das idéias.
A leitura de Machado é uma aula de português sem-fim e um encontro com o Brasil – Colônia, com um Rio de Janeiro que não existe mais.
Os jovens leitores, no entanto, precisam ser preparados para lê-lo, e nunca por obrigação, como faziam nossos antigos mestres, pois a leitura deve ser uma forma de felicidade, como muito bem assinalou Borges, o notável escritor argentino.
Tendo passado pelo realismo e pelo romantismo, sua obra é muito reflexiva e irônica. Chama a atenção o soneto a Carolina, companheira de longos anos, na despedida em 1904:

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho aos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis do Rio antigo e da Academia, homem dos doces, das letras e dos jornais, brasileiro ímpar, nos diria que a vida dura um tanto e depois cessa. Diríamos que não, pois ele prova a nossa tese: a vida dura quanto deve durar e pode transcender a morte, como a dele, que continua vivendo na nossa.
E de certa forma ele assim o intuiu no soneto que fala do mundo interior como um contraponto à natureza exterior quando diz:

E contudo, se fecho os olhos e mergulho
Dentro de mim, vejo à luz de outro sol, outro abismo
Em que um mundo mais vasto, armado de outro orgulho,

Rola a vida imortal e o eterno cataclismo,
E, como o outro, guarda em seu âmbito enorme,
Um segredo que atrai, que desafia, - e dorme.


Nagib Anderáos Neto
www.nagibanderaos.com.br

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