Monday, March 12, 2012

O Traidor Pessoal

Quando se fala em traição vem-nos à recordação uma série de fatos observados: um amigo que traiu um ideal ou a palavra empenhada, o desertor que passou às fileiras inimigas, o político que esqueceu dos compromissos assumidos.
A passagem da traição de Judas que se juntou aos fariseus para consumar o fato que levou seu instrutor à condenação e à morte - conforme textos bíblicos - somada às constatações pessoais que vamos fazendo dia-a-dia configuram o quadro eloqüente da traição continuamente praticada entre os homens desde tempos distantes.
Esses fatos não teriam um significado mais profundo e instrutivo?
O conhecimento logosófico projeta sua luz sobre a questão milenar da traição afirmando que a mente inferior do homem - esfera mental não cultivada e suscetível a todo tipo de influência negativa - representa seu Judas pessoal. A mente que alberga pensamentos contraditórios que fazem o ser humano tomar atitudes contrárias a seus sentimentos, como se algo mais forte que ele agisse dentro de si traindo-o continuamente e fazendo-o carregar sobre seus ombros o peso de seus erros e conseqüentes sofrimentos.
A psicologia farisaica caracteriza-se por sua sistemática oposição à Verdade manifesta. Pretendendo ser sua intérprete precisa, é, ao contrário, a inimiga da Verdade e do Bem. Querendo tudo para si menospreza os critérios e as razões alheias, colocando-se na ilusória posição de uma superioridade inexistente. Intrigante e conspiradora, hábil em jogar uns contra os outros, deleita-se com o espetáculo maquiavélico promovido por sua mente doentia e desmedida ambição que está sempre a incliná-la para o poder e para a riqueza. Aos que a descobrem em suas ocultas intenções, verte o fel secular do rancor que as mais duras e sofridas experiências não foram capazes de extirpar.
Nos tempos antigos os fariseus julgavam-se os únicos seres fiéis às Leis de Deus, capazes de interpretar a Verdade. Isto deveria colocá-los numa posição de privilégios defronte dos que não fossem iluminados como eles supunham ser. Deveriam ser intermediários entre a Verdade e a alma que por ela ansiava. Na realidade, com sua estreita visão, encarcerados às linhas dos livros, letras mortas, encontravam-se muito distantes da Verdade, por estarem muito distantes dos outros seres humanos, seus irmãos. Escribas fanáticos, doutores pedantes, eméritos tergiversadores, deixaram uma herança negativa que fustiga as mentes e os corações humanos até os dias atuais.
A psicologia farisaica vive da mentira e da tergiversação, da conspiração, do ódio e do rancor. Está em todas as partes: nas ruas, nos governos, nas empresas, em instituições diversas. Tem seu assento em nossas próprias mentes caso não saibamos nos defender de sua influência nefasta que torna os seres hipócritas e pedantes, bajuladores e falsamente humildes e mansos; limpos por fora, mas sujos por dentro.
Não basta identificá-la e apontá-la nos demais, senão defender-se de sua influência negativa que afasta o ser humano da felicidade e da Verdade.
O farisaísmo equivale à hipocrisia e ao fingimento, uma sutil tendência negativa da natureza humana com suas raízes no formalismo religioso dos fariseus; além de voltar as costas à Verdade, esmeraram-se na arte de torcer seu significado dando à mentira aparência de verdade com o deliberado intuito de submeter os semelhantes surpreendidos em sua inocência e boa fé.
As nossas instituições estão eivadas destas figuras teatrais, com sua eloqüência mentirosa, seus discursos aparentemente irrepreensíveis, cuja conduta nada tem a ver com seu palavrório enfeitado e oco. É preciso ter olhos bem abertos para surpreender essa tendência que equivale também à impostura e à falsidade.
O que não se tem pensado é que esta tendência ou deficiência mental existe na grande maioria dos seres humanos como conseqüência de um grande desvio na integração das qualidades pessoais. O desconhecimento da enigmática e misteriosa realidade dos pensamentos que governam a mente humana impede o domínio que a inteligência possa exercer sobre os mesmos, dando lugar a uma verdadeira eclosão de pragas mentais das quais a hipocrisia é uma significativa representante.
O método logosófico de investigação da natureza pessoal e interior propõe o exercício de voltar-se para si mesmo e estudar-se, identificando e eliminando as pragas que por ventura existam. Esta capacidade pessoal tem sido postergada pelo desuso proveniente da cultura do escapismo. O sedentarismo mental deve ser abolido através de saudáveis e diários exercícios espirituais que somente a própria pessoa poderá fazê-los no próprio benefício.
O hipócrita não se julga como tal por desconhecer-se. Este desconhecimento equivale a uma prisão espiritual que posterga, indefinidamente, a auto-redenção e o aperfeiçoamento individual.

NAGIB ANDERÁOS NETO

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Tuesday, May 18, 2010

Voluntariado no Combate à Corrupção

Antes de procurarmos as raízes históricas da corrupção em nosso país, remontando-nos ao Brasil - Colônia e aos primeiros dilapidadores de nossa terra e exploradores dos ancestrais que aqui estavam muito antes dos colonizadores que vieram trazer sua pretensa cultura em troca de riquezas que levavam para a Europa, falemos das raízes psicológicas desta doença nefasta que corrompe as mentes e endurece os corações criando miséria e injustiça social.

O corrupto é um doente mental que vive em liberdade pelas cidades aparentando uma sanidade que o observador perspicaz não deixa de perceber que é falsa.

A corrupção é o desrespeito total à figura humana, uma atitude travestida de misericórdia e bondade, tão bem representada por pessoas que fingem parecer o que não são nos palanques, nos púlpitos, nas telas das televisões.

O corrupto é um especialista em iludir o semelhante, um camaleão social, sempre pronto e disposto a enganar as pessoas tristemente chamadas de boa-fé. Ele não mostra, não demonstra, não comprova. Seu discurso oco, sorriso cínico e olhar oblíquo têm como único objetivo enganar para se beneficiar. É um materialista incorrigível sempre a se esconder por detrás de uma máscara de bondade que se desfaz à menor e firme oposição inteligente.

A corrupção se confunde com hipocrisia, ambição, mentira e desumanidade. Geradora de guerras e desentendimentos de toda a ordem é o signo mais eloqüente da ignorância. Para combatê-la será necessário combater o atraso e as superstições de toda índole.

É comum associá-la à política, pois ali ela é mais visível, mas não é apenas privilégio daquele triste ambiente; está nas empresas, em associações diversas, porque suas raízes são mentais, pensamentos enraizados nas mentes humanas há séculos que levam os seres humanos a iludir a outros para se beneficiar.

A vitória sobre esta doença será o fruto de um processo lento, mas contínuo, que deverá começar no ambiente familiar, nos bancos escolares, para atingir, depois, todo o tecido social, educando as crianças para a vida, para a boa convivência, preservando suas mentes de pensamentos ambiciosos e agressivos, transmitindo-lhes conceitos humanitários que lhes criem uma consciência de ser humano que veja a vida como um grande campo de experiência, amizade e aprendizado, ao invés do palco onde se desenrola o triste espetáculo das desumanidades e das atrocidades dos seres que vivem a enganar a si próprios e aos demais.

A corrupção tem suas raízes no egoísmo ancestral que trazemos dentro de nós e que nos serviu em épocas remotas nas quais deveríamos nos defender das intempéries naturais, das feras e de nossa própria ignorância. Com o passar dos tempos, as feras que combatíamos surgiram em nossas mentes como pensamentos que agora querem nos devorar e a nossa espécie, como o egoísmo.

Será necessário aprendermos a nos preocupar inteligentemente conosco e com as demais pessoas, pois servir os outros é a maneira mais inteligente de servir a si mesmo. E mais do que dar o peixe, que bem sabido é que não leva a nada, ou mesmo ensinar a pescar, é importante saber se a pessoa ajudada faz bom uso do bem recebido e se o transmite às outras pessoas para que seja credora de apoio futuro.

Assim é como muitas pessoas têm encontrado no voluntariado uma maneira de combater essa praga mental que é a corrupção cujas raízes não foram ainda devidamente identificadas e eliminadas.


Nagib Anderáos Neto
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